quarta-feira, 1 de junho de 2011

A Batalha da Inglaterra

Pleno verão, 1940


No encerramento do seu mais famoso discurso de tempo de guerra, Churchill usou as seguintes palavras: “A Batalha da França está terminada... A da Inglaterra está prestes a começar. Dela depende a sobrevivência da civilização cristã. Dela dependem o nosso modo de vida e a continuidade das nossas instituições e do nosso Império”.

Estas palavras continham um elemento de verdade histórica normalmente não encontrado nos discursos públicos tão claramente expresso. No fim do verão de 1940, somente a Inglaterra desafiava ainda o poderio alemão e rejeitava a filosofia nazista - porque, de todas as potências que haviam tomado as armas contra Hitler, somente ela permanecia inconquistada. Além da Inglaterra, apenas a Rússia e Estados Unidos podiam oferecer resistência física à Alemanha nazista, mas a cegueira de seus governantes não lhes permitia ver o espantalho da enorme ameaça à soberania dos povos que Hitler levantara.

Foi, portanto, verdadeiramente vital para a liberdade do mundo a heróica resistência que a Inglaterra opôs ao furor nazista no momento em que ele subia ao auge.

Naqueles longos dias de verão de 1940, em plena batalha da Inglaterra  muitos e muitos jovens, atendendo aos apelos de Churchill, deram, como Edward Bishop narra e forma tão vívida, muito sangue e muito suor para que também ali não descesse a noite da civilização. Num dos subúrbios londrinos, um piloto de caça da RAF que abandonara o avião, por haver sido atingido, foi entusiasticamente beijado por todo o pessoal da lavanderia onde caiu, enquanto que, na costa, a policia local teve de lutar para que pilotos da Luftwaffe que haviam sido derrubados não fossem linchados pelas peixeiras.

Estes elementos estavam presentes no momento em que se desenrolava o período de grande adversidade para o povo britânico. Por trás deles, porém, o esforço industrial que colocou nos céus o Spitfire, para o que muito contribuíram a iniciativa de Lady Houston e a inventiva que fez surgir o radar. As guerras sempre foram decididas mais pela qualidade das armas e do equipamento do que o reconhece o sentimento popular, e quanto mais industrializado se tem tornado o mundo, maior o fator desempenhado pela habilidade técnica em comparação com as antigas virtudes da bravura e da força. O livro de Edward Bishop também ilustra este aspecto de maneira brilhante: a Batalha da Inglaterra foi finalmente vencida pela capacidade de subir bem alto e depressa, de disparar com boa pontaria e, mais importante ainda, de estar no lugar certo na hora certa.



A queda da França


Para Berlim, era quase inacreditável. A França, o velho inimigo, caíra ante o exército e à Luftwaffe. Holanda e Bélgica haviam sido invadidas, a Dinamarca fora ocupada e a Noruega, derrotada depois de luta breve e implacável, enquanto que, no Leste, há pouco menos de um ano o até então vitorioso exército germânico havia, conquistado em poucos dias a Polônia, levantado forte trincheira contra Moscou.

Tudo tão fácil, uma autêntica “barbada” para os alemães, tanto que, ao chegar o verão de 1940 à Europa, era razoável que o povo alemão esperasse que a Inglaterra procurasse a paz segundo os termos ditados por Berlim. Certo que, ao firmar o armistício com o velho Marechal Pétain, em fins de 1940, Adolf Hitler, o idolatrado Fuhrer, deus aos alemães razões de sobra para esperar milagres.

Ao levar os derrotados franceses à floresta de Compiégne, ao mesmo vagão em que a França, em 1918, obrigara a Alemanha a depor as armas, Adolf Hitler, procedendo de acordo com o sentido que abrigava, conferia ao ato o colorido de vingança a que, segundo afirmava, tinha direito o povo germânico.

Ali, Adolf Hitler, mais poderoso na Europa continental do que Napoleão no auge do sucesso, desceu risonho, do trem que o levou ao local, seguido de seus feldmarechais. Gozava o ex-cabo, ao derrotar a França, o prazer de ser vitorioso onde o Keiser e todo os seu brilhante Estado-Maior haviam falhado. Era uma vingança gloriosa, após anos de luta e prisão, pois Hitler retornara da Primeira Guerra decidido a vingar o Tratado de Versalhes e os termos impostos à Alemanha pelos vencedores de 1914-1918.

Mas, entre Adolf Hitler e suas ambições estava a Real Força Aérea da Inglaterra, ou, pelo menos, o que restava dela, após a queda da França e a evacuação do exército britânico de Dunquerque. Para grande espanto dos germânicos, os britânicos mantinham-se de pé. Em fins de maio e começo de junho, eles haviam saído do continente, retornando à sua pequena ilha, deixando para trás os seus blindados e o seu equipamento. Em fins de junho, porém, eles se estavam preparando desafiadoramente para a invasão através de 35 km de mar picado e, na opinião dos alemães prolongando a guerra de maneira desesperada e suicida. Por certo os britânicos não demorariam a concluir que a situação era de desespero e que inútil seria a continuação da guerra. A ilha estava sitiada, do golfo de Biscaia aos fiordes da Noruega, por uma invencível Luftwaffe

Os alemães eram de opinião de que a Real Força Aérea (RAF), ou melhor, o que restava dela, estava flanqueada e em inferioridade numérica, e, sem cobertura aérea, a Marinha Real, por mais poderosa e corajosa que fosse, não podia salvar a Inglaterra do bloqueio ou da invasão. Em terra, as cidades e indústrias do Reino Unido permaneciam à mercê da Luftwaffe. Assim, não seria temerário e inútil continuar lutando? O povo alemão contentava-se com o fato de que cedo ou tarde os britânicos haveriam de ter bom sendo. Mais alguns dias e a guerra estaria terminada.

Mas havia um homem na Alemanha que não tinha tanta certeza. Adolf Hitler estava inquieto com relação à Inglaterra e àquela mosquinha ridiculamente desafiadora, a RAF. No inicio da luta pela conquista do poder que empreendeu em 1933, Adolf Hitler registrou em seu testamento político, o Mein Kampf, a opinião que tinha do povo britânico. “pode-se confiar em que o governo e mesmo o povo britânicos, para se vitoriarem na luta em que se venham a meter, hajam sempre com muita tenacidade, e recorram até mesmo à brutalidade, ainda que o equipamento militar disponível seja totalmente inadequado, comparado ao de outras nações”.

Portanto, não era de espantar que Hitler tivesse dúvidas quanto ao sucesso das propostas públicas de paz que fez em junho de 1940 e, a 2 de julho, ordenou o preparativo de planos provisórios para a invasão da Inglaterra. Assim procedendo, ele revelava a intenção de silenciar os receios que possuía de atacar a Inglaterra, deixando-se levar pelo desempenho excepcional da Luftwaffe. Goering, Marechal do Reich e Comandante-Chefe da Luftwaffe, confiava na previsão de que a sua força aérea podia vencer as defesas de caça da Inglaterra em questão de poucos dias. Hitler deixou-se levar pelo sonho. Certamente ele achava a previsão otimista de Goering mais agradável do que as advertências do Grande Almirante Raeder contra a invasão. Além disso, como já estava pensando na conquista da Rússia na primavera seguinte, o Fuhrer permitiu-se acreditar no golpe aéreo arrasador desferido por Goering. Ele possivelmente evitaria a necessidade de desembarques; possivelmente traria a Inglaterra para a sua mesa de paz, onde talvez pudesse ser arregimentada como parceira menor numa cruzada contra a Rússia comunista.

Mas, se fosse preciso fazer desembarques, que fossem feitos. Depois de estabelecer a completa superioridade aérea, a Luftwaffe neutralizaria a ameaça de interferência da Marinha Real e aceleraria o avanço do exército alemão rumo a Londres. Se na primavera a Luftwaffe lançara o exército ao outro lado do Mosa e o levara até Paris, agora, pleno verão, o que poderia ser o Canal da Mancha senão outra travessia? Verdade que um pouco mais demorada e turbulenta.

No começo de julho, a Luftwaffe, renovada e reequipada após a grande vitória continental, estava pronta para reiniciar as operações em larga escala. Descansando em Karinhall, sua casa de campo, situada nos arredores de Berlim, Herman Goering esperava impaciente a hora de lançar as três frotas aéreas contra a Inglaterra.

Enquanto manobrava seus trens de brinquedo, o Marechal do Reich planejava o “Ataque das Águias” que subjugaria a Inglaterra.

Do ponto de vista da Alemanha, a Inglaterra e a França haviam ousado declarar guerra contra ela enquanto invadia a Polônia. A Luftwaffe eliminara rapidamente a Polônia e a França estava dobrada. A Inglaterra não demoraria a descobrir que a Alemanha possuía uma arma aérea capaz de a derrubar em poucas semanas.

Na verdade, Herman Goering confiava tanto na capacidade da Luftwaffe de conquistar sozinha a Inglaterra que não demonstrou qualquer interesse no planejamento do exército e da marinha para a invasão. Duas frotas aéreas alemães, a 2 e a 3, estavam de prontidão na França, Bélgica e Holanda, enquanto que uma terceira, pouco menor que as duas outras, a Frota Aérea 5, estava estacionada na Noruega e Dinamarca. Estas três frotas aéreas totalizavam mais de 3.000 bombardeiros e caças, força suficientemente grande para eliminar as defesas da área da invasão da Inglaterra em quatro dias e terminar a guerra em menos de um mês. Pelo menos assim pensava o Comandante-Chefe da Luftwaffe.

Enquanto os caças e bombardeiros aguardavam nos aeródromos avançados, Goering pensava orgulhoso no instrumento de conquista que havia criado. Vaidoso da sua folha de serviços como piloto de caça, com 22 vitórias creditadas na Primeira Guerra, Goering deu prosperidade à nova arma aérea como Ministro da Aeronáutica da Alemanha, após a subida de Hitler ao poder, em 1933. Contudo, o verdadeiro trabalho de base fora feito anteriormente, pelos profissionais do exército, entre os quais se encontravam os Feldmarechais Kesselring e Sperrle e o general Stumpf, e os líderes da Luftwaffe que estavam enfrentado a Inglaterra no comando das Frotas Aéreas 2, 3 e 5.

Explorando uma saída no Tratado de Versalhes, os generais alemães, antes mesmo que os nazistas subissem ao poder, haviam forjado sua grande arma de guerra, o que aliás não fora difícil. Embora tivessem destruído o Corpo Aéreo Alemão da Primeira Guerra Mundial, os Aliados não haviam conseguido regulamentar o futuro da aviação civil alemã. Tendo recebido permissão para manter uma organização de defesa nos termos do Tratado, a Alemanha confiou o alto comando do exército ao general von Seeckt, que, através da estreita ligação que manteve com a aviação civil, lançou as bases da Luftwaffe em 1921 - ajudado pelos jovens Kesselring, Sperrle e Stumpf. Outros que tinham subido ao poder com os comandantes da frota aérea, e que agora se encontravam montados confortavelmente no êxito-relâmpago da Luftwaffe, também colaboraram. Entre outros que ocupavam postos elevados no comando da Luftwaffe estavam Erhard Milch, até pouco antes membro da linha aérea civil, a “Lufthansa”, e que em 1940 era Subcomandante-Chefe da Luftwaffe; Ernst Udet, Chefe de Equipamento, e Hans Jeschonnek, Chefe do Estado-Maior Geral da Luftwaffe. Além disso, os fabricantes alemães de aviões não haviam perdido tempo diante das oportunidades que surgiram nos anos entre as duas guerras. O resultado disso, foi que, no verão de 1940, os aviões Dornier, Junkers, Heinkel e Messershmitt que estavam prontos para conquistar a Inglaterra deviam sua existência aos soldados e industriais que há 21 anos vinham preparando este ato de vingança.

Já em 1928, habilmente instalada na Suécia, a companhia Junkers construiu um bombardeiro de mergulho, o precursor do Stuka, o Ju 87. Por volta de 1935, um protótipo do Ju 87 estava voando na Alemanha - registrando uma trepidação de cauda - acionado por um motor Kestrel, da Rolls-Royce, a famosa companhia britânica de automóveis. Em 1933, Ernst Udet fazia experiências com um par de bombardeiros de mergulho Curtiss Hawk que adquirira aos Estados Unidos. O desenvolvimento dos caças também não ficou parado, pois já em 1935 um Me 109 punha à prova as suas qualidades, também acionado por um motor Kestrel, inglês.

Os líderes da frota aérea e seus aviões não eram, porém, os únicos produtos do rearmamento secreto alemão; os comandantes em níveis mais baixos e muitos dos que estavam prestes a decolar para o ataque à Inglaterra haviam sido adestrados em campos e aeródromos desconhecidos dos Aliados.

A partir de 1924, oficiais escolhidos eram despachados para uma escola de treinamento de pilotos situada na Rússia, em Lipetz, e muitos dos que viriam a ocupar comandos importantes durante a Batalha da Inglaterra, em 1940, passaram por Lipetz como civis. Outros, usando uniforme italiano, haviam treinado na Itália por cortesia do ditador Benito Mussolini.

Em 1926, por instigação de von  Seeckt, criara-se a Lufthansa como linha aérea estatal, sob a  direção de Erhard Milch, herói da aviação de guerra de 1914-18. Em 1940, Milch era general e estava bastante desapontado com o fato de a Luftwaffe ter sido refreada desde a evacuação de Dunquerque.

A futura força aérea alemã, estimulada por von Steeckt, encontrou na Lufthansa um campo de treinamento de primeira classe. As tripulações das aeronaves da empresa tendo em vista os objetivos daqueles que inspiraram a sua criação, somaram a seus deveres civis a instrução militar.

Somente em 1935 é que a Luftwaffe finalmente se revelou, sob o comando de Goering, Milch e outros camaradas da Primeira Guerra, como a mais poderosa força aérea da Europa, e pronta para testar homens e máquinas em apoio à insurreição de Franco contra o governo republicano espanhol. Foi uma prova bem sucedida.

Na Espanha, unidades da Luftwaffe comandadas por Hugo Sperrle e Wolfram von Richthofen, primo do famoso às de caça da Primeira Guerra, compensavam a escassez de artilharia de Franco. Ali, os bombardeiros de mergulho Ju 87, Stuka, de von Richthofen, ensaiaram o cerrado apoio tático aos ataques e à infantaria que produziu a aterradora Blitzkrieg - e colocou as Frotas Aéreas 2 e 3 a poucos minutos de vôo dos aeródromos de linha de frente da Inglaterra. Também na Espanha, pilotos da Luftwaffe que estavam destinados à futura liderança, entre os quais Adolf Galland e Werner Molders, que não demorariam a tornar-se figuras lendárias, ganharam experiência de combate. Como parte dos esquadrões “Condor”, das Alemanha, eles se aperfeiçoaram nas operações de apoio cerrado ao exército que subseqüentemente conduziram às vitórias alemães de 1939 e 1940, na Polônia e na França. A Luftwaffe aproveitou ao máximo as oportunidades de treinamento que teve nos céus da Espanha, revezando voluntários inexperientes com “veteranos” da guerra civil, para difundir a experiência por toda a arma.

Tomando por base as possibilidades da força que tinha sob comando, Goering considerava um desperdício de tempo e reforço o trabalho de planejamento da invasão da Inglaterra. Na sua opinião, os 800 caças Me 109, os 300 caças-destróiers bimotores de longo alcance Me 110, os 400 bombardeiros de mergulho Ju 87 e os 1.500 bombardeiros Dornier, Heinkel e Junkers tornavam redundante o planejamento da invasão.

Em Karinhall, aumentando impaciente a velocidade do trenzinho de brinquedo com que se divertia em casa, o Comandante-Chefe da Luftwaffe desejava sinceramente que ele fosse o trem especial que o levaria à costa do Canal da Mancha para testemunhar o fim da Inglaterra.

Todavia, Hitler não conseguia persuadir-se a dar o passo irrevogável enquanto fosse possível a paz sem conquista. A 16 de julho, duas semanas antes de ordenar a feitura de um plano provisório para a invasão, ele emitiu a Diretiva 16, detalhando alguns pontos da operação: “Como a Inglaterra, apesar de sua desesperada situação militar, ainda não demonstra disposição de chegar a um acordo, decidi preparar, e, se for necessário, executar, uma operação de desembarque contra ela. O objetivo dessa operação é eliminá-la como base de onde possam vir a dar prosseguimento à guerra contra a Alemanha e, se necessário, ocupar completamente o país”. O documento não fixava data. A invasão ainda era, apenas, uma questão de planejamento de contingência.

Enquanto o exército, a marinha e a força aérea, seguindo as ordens de Hitler, faziam seus preparativos, o povo alemão não podia crer que a Inglaterra fosse tão imprudente a ponto de provocar uma invasão. Os jornais de Berlim estavam quase certos de que a guerra terminara. “A Inglaterra está à beira de uma decisão”, declarou o vespertino Nachtausgabe. “Existe apenas uma leve possibilidade de vir a Inglaterra a oferecer qualquer resistência militar... O povo britânico está positivamente temeroso dos próximos acontecimentos militares e políticos”.

Bandeiras de vitória, música de vitória e alegria de vitória - o Fuhrer relaxara suas restrições à realização de bailes às quartas-feiras e sábados - tudo isso ocorria para dar ao povo a sensação de que tudo estava terminado; alguns generais também pensavam assim. Rommel escreveu, da França, à sua mulher: “segundo calculo, venceremos a guerra dentro de uma quinzena. O tempo está encantador - se há alguma diferença, está ensolarado demais”.

Hitler esperava que os otimistas estivessem certos, mas inquiria-se em silêncio: será que os britânicos realmente cederiam sem lutar? O verão, período próprio para a campanha, começava a escoar-se. Só havia um rumo a tomar: submeter as propostas de paz a um último e dramático teste, e se estas fracassassem, soltar a Luftwaffe e dar a Goering a oportunidade por que esperava. A 19 de julho de 1940, Adolf Hitler falou ao mundo:

“Nesta hora, julgo ser do meu dever, perante a minha consciência, apelar uma vez mais para a razão e o bom senso, tanto da Inglaterra como do resto do mundo. Considero-me em condições de fazer este apelo porquanto não sou um vencido buscando favores, mas o vencedor falando e nome da razão. Não vejo por que esta guerra deva prosseguir. Angustio-me só em pensar nos sacrifícios que ela exigirá. Gostaria de evitá-los também para meu povo... Possivelmente o Sr. Churchill fará de novo por ignorar as minhas declarações alegando que são apenas nascidas do medo... Neste caso, terei desobrigado a minha consciência quanto ao que possa acontecer... O Sr. Churchill deveria, pelo menos uma vez, acreditar quando digo que um grande império será destruído - um império que jamais pretendi destruir ou mesmo prejudicar. Todavia, compreendo que esta luta, se prosseguir, só pode terminar com o completo aniquilamento de um dos adversários. o Sr. Churchill talvez creia que será a Alemanha. Eu sei que será a Inglaterra”.

A Inglaterra se entrincheira


Em Londres, Winston Churchill desdenhava o apelo de Hitler à razão, o que parecia insensato para os que estavam fora da Inglaterra. Depois de anos de exílio no deserto político, anos em que não se cansou de advertir os sucessivos governos britânicos da ameaça que representava o rearmamento da Alemanha, Churchill substituiu Neville Chamberlain como Primeiro Ministro, a 10 de maio de 1940 - no dia exato em que Hitler invadiu a França e os Países Baixos.

Assim, em poucas semanas, Churchill viu realizados os seus piores receios. Viu a Luftwaffe abrir caminho à força para o exército alemão até a costa do Canal da Mancha, e no processo, viu também a RAF ser reduzida. Mas, exceto para aplicá-la a um adversário, a palavra rendição jamais fora encontrada em seu vocabulário - embora, em sua sensatez, ele respeitasse a opinião pessimista dos observadores estrangeiros e suas razões. Através do rádio, ele afirmou: “Não é difícil compreender até que ponto receiam pela nossa sobrevivência os bondosos observadores do outro lado do Atlântico e os amigos naturais de países da Europa ainda não violentados, que não tem condições de medir nossos recursos e nossa determinação, depois de terem visto tantos estados e reinos destroçados, em questão de semanas ou mesmo dias, pela monstruosa força da máquina bélica nazista”.

Falando em Pearl Harbor, o Coronel Knox, Secretário da Marinha dos Estados Unidos e amigo da Inglaterra, endossaria as palavras de Churchill quando, no auge da batalha disse: “As possibilidades de vitória da Inglaterra são agora superiores a 50%”.

Após a queda da França, Churchill dirigiu-se assim à nação: “O que o General Weygand chamou de a Batalha da França está terminada. A Batalha da Inglaterra está prestes a começar. Dela dependem o nosso modo de vida e a continuidade das nossas instituições e do nosso império. Toda a fúria e todo o vigor do inimigo deverão em pouco ser assestados contra nós. Hitler sabe que terá de destruir-nos nesta ilha ou perder a guerra. Se o pudermos resistir, toda a Europa poderá ser libertada e a vida do mundo poderá erguer-se aos píncaros ensolarados. Mas, se fracassarmos, o mundo inteiro, inclusive os Estados Unidos, e tudo o que conhecemos e que apreciamos, mergulharão no abismo de uma nova era de obscurantismo, tornada ainda mais sinistra, e talvez mais prolongada, pelas luzes de uma ciência pervertida. Portanto, cobremos coragem para cumprir nosso dever e nos comportemos para que, se o Império Britânico e a Comunidade das Nações durarem mil anos, possam todos ainda assim dizer: Este foi o seu momento supremo”.

Assumindo o cargo a 10 de maio, confrontado, imediatamente pela invasão da França e, pouco depois, pela evacuação de um exército britânico em retirada e despojado da maior parte do seu equipamento militar, Churchill não teve tempo de reparar os erros dos seus predecessores, de preparar-se para a batalha que, segundo temia, devia sem demora atravessar o Canal, a qual antecipadamente denominou Batalha da Inglaterra.

Por trás da estimulante e oportuna convocação de Churchill à nação depositava-se a história, triste e longa, da falta de disposição do governo britânico para encarar o alarmante rearmamento da Alemanha como uma ameaça à paz mundial. Em conseqüência, era apenas razoável a rede de defesa contra ataques aéreos - mesmo depois da queda da França.

Na verdade, se não fosse a inventiva pessoal, a filantropia particular, o espírito público e a capacidade empresarial de vários indivíduos e companhias fabricantes de aviões, a RAF não teria sido equipada com quaisquer aparelhos que pudessem competir com a Luftwaffe, como os caças Spitfire e Hurricanes. Em 1936, quando a Luftwaffe já estava preparando seus novos Do 17, He 111, Ju 87 e Me 109, os modernos monoplanos, submetidos à prova um ano mais tarde, na guerra civil espanhola, Londres era protegida por biplanos.

Num exercício realizado em 1936 para a defesa dos principais aeródromos de caças de Londres, Biggin Hill, Hornchurch e North Weald, o Comando de Caças da RAF reunira três esquadrões de Bristol Bulldogs, quatro de Hawk Ruries e um de Gloster Gauntlets, Quando Neville Chamberlain retornou de Munique, no outono de 1938, dos 30 esquadrões de caça operacionais, apenas um estava equipado com Spitfires e 5 reequipados com Hurricanes.

Se, nos anos inquietos que precederam a deflagração da Segunda Guerra Mundial, a Luftwaffe contava com dedicados servidores, homens com experiência como o seu Comandante-Chefe, Hermann Goering, adquirida nos combates de 1914-18, a RAF também tinha seus líderes do Real Corpo de Aviação do passado.

A diferença é que oficiais como o Marechal-do-Ar Sir Hugh Dowding chefe de pesquisa e desenvolvimento no período crítico do começo até meados dos anos 30, tiveram pela frente líderes políticos que não se estavam preparando para a guerra. Carecendo de entusiasmo governamental e de generosidade financeira, Dowding e seus colegas estavam em desvantagem em relação aos seus equivalentes da Luftwaffe.

Apesar disto, ainda que os protótipos dos caças Spitfire e Hurricane só fossem encomendados em 1934 e 1935, respectivamente, a liderança da RAF britânica não se manteve ociosa, mas a evolução do Spitfire e do Hurricane se devia tanto a uma série de incidentes românticos e gestos corajosos quanto ao planejamento da defesa. Uma história realmente estranha.

Em 1927 e 1929, enquanto as sementes da Luftwaffe estavam sendo plantadas às ocultas, a RAF conquistara o “Troféu Schneider”, o cobiçado prêmio de uma corrida internacional de hidraviões bienalmente disputada. Uma terceira vitória conquistada em 1931, daria à Inglaterra a posse definitiva do troféu. Mas, por motivos econômicos, o governo britânico não deu à RAF as condições de competir. Portanto, parecia que a RAF teria de se conformar em ver os Estados Unidos ou, talvez, a Itália lhe arrebatar o troféu. Foi então que a rica e excêntrica Lady Houston ofereceu 50.000 libras esterlinas para cobrir as despesas com a participação dos britânicos. O governo cedeu envergonhadamente e a RAF, montada num avião que seria o pai de todos os Spitfires, venceu a corrida e conservou o troféu. Os marechais-do-ar aproveitaram a oportunidade e fizeram pedidos de dois protótipos distintos de caças, segundo especificações relacionadas com a experiência adquirida nessa disputa.

Era uma corrida contra o tempo. O avião que conquistara o “Troféu Schneider” em 1931 havia saído da prancheta de desenho de R.J. Mitchell, projetista-chefe da Companhia Supermarine, e Mitchel estava morrendo. Em férias na Alemanha, após uma intervenção cirúrgica séria, Mitchell conhecera entusiastas alemães da aviação e voltara cheio de presságios sobre o futuro. Ele sabia que estava trabalhando contra o relógio por dois motivos, suas ruins condições de saúde e o rearmamento da Alemanha. Em sua ansiedade, Mitchell trabalhava em dois aparelhos - o primeiro dentro das especificações restritivas e retrógradas do governo, e o segundo, o verdadeiro Spitfire, para realizar a sua visão e da Companhia Supermarine do que deveria ser um caça moderno. Reginald Mitchell morreu em 1937, aos 42 anos de idade, pouco depois que os primeiros Spitfires produzidos começaram a voar.

Sydney Camm, da Hawker, criou o Hurricane. Camm sentia-se feliz em fugir aos biplanos, cujo valor ele há muito vinha discutindo com a Força Aérea, que ainda estava influenciada pelo relatório de uma comissão de 1912, que decidira que os monoplanos eram perigosos.

Considerando-se que trabalharam contra o tempo, é extraordinário como Mitchell e Camm reduziram a vantagem da Alemanha. Afinal de contas, eles estavam enfrentando novos problemas, do princípio ao fim, problemas que diziam respeito à era do monoplano e dos seus refinamentos, incluindo trens de aterrissagem escamoteáveis e os novos aparelhos para auxiliar o vôo, como o rádio e os instrumentos de carlinga para vôo cego. Além disso, estavam também ingressando numa nova era de motores aéreos, com a substituição do Kestrel, tão intensamente experimentado na Alemanha, pelo magnífico Merlin da Rolls-Royce. Havia igualmente o problema da compatibilização dos armamentos com a velocidade dos caças modernos, o aparecimento, com o Spitfire e o Hurricane, do caça com 8 metralhadoras.

Do lado do crédito, contudo, tiveram o conforto, Mitchell e Camm, de se verem ardorosamente apoiados pelas respectivas companhias durante todo o período de trabalho que realizaram no sentido de avançar vários anos de pesquisa. Na Supermarine, uma subsidiária da Vickers Aviation, o presidente da companhia associada da Vickers, Sir Robert Mclean, protegeu Mitchell da interferência governamental, especialmente porque ele estava construindo secretamente o verdadeiro caça, o que o governo não havia encomendado.

Surgiram outros aviões quando iminente a batalha, como esta narrativa mostrará - o bombardeiro Blenheim, por exemplo, lamentavelmente destacado para o papel de caça, e o obsoleto biplano Gladiator, muito superados pelos dois astros notáveis da Batalha da Inglaterra, o Spitfire e o Hurricane.

Para imenso alívio da Força Aérea, os protótipos dos dois novos caças revelaram grandes realidades logo em seus vôos inaugurais - o Hurricane a 6 de novembro de 1935, e o Spitfire a 5 de maio de 1936. Por volta de dezembro de 1937, o Uricana estava entrando em serviço em esquadrões, mas os primeiros Spitfires só se tornaram disponíveis para vôo operacional em junho de 1938.

Gradativamente, os novos Hurricanes e Spitfires substituíram os obsoletos biplanos Gauntlet e Gladiator, que protegiam a Inglaterra mas não eram adversários para os modernos caças e bombardeiros da Luftwaffe. À medida que a velha-guarda entregava os esquadrões um após outro, quem se sentia cada vez mais aliviado e satisfeito era Dowding que, no verão de 1936, fora transferido da pesquisa e desenvolvimento para criar e dirigir, como Comandante-Chefe, uma organização de defesa digna dos novos aviões, o novo Comando de caça da RAF. Toda a defesa aérea do país passou à responsabilidade de Dowding. Além dos esquadrões de caça da RAF, o Comandante-Chefe do Comando de Caças exercia o controle operacional do Comando Antiaéreo, do Comando de Balões e do Corpo de Observadores - mais tarde chamado Real Corpo de Observadores.

As frustrações de Dowding com o equipamento da RAF eram muitas e irritantes, enquanto se esforçava por dotar a Inglaterra de um sistema eficiente de defesa.

No começo, quando o Marechal-do-Ar de 54 anos de idade, se deslocou para o QG Bentley Priory, uma histórica mansão situada em Stanmore, nos arredores norte de Londres, teve de lutar contra uma política derrotista. Em 1932, Stanley Baldwin declarou: “O bombardeio sempre conseguirá passar... a única defesa é a ofensiva, o que significa que vocês terão de matar mais mulheres e crianças mais depressa se quiserem salvar-se”. Em 1936, ano em que Dowding chegou ao Comando de caças, Stanley Baldwin se tornara Primeiro Ministro.

Considerado homem de mentalidade muito defensiva, Dowding estava incomodamente cônscio de que talvez tivesse de se reformar mais cedo do que pretendia, porque, como o pessoal das forças armadas britânicas dizem, um chapéu coco estava sempre suspenso sobre sua cabeça. Ignorado como Chefe do Estado-Maior da Aeronáutica, o cargo mais elevado da RAF, Dowding, homem inflexível (que seus contemporâneos haviam apelidado de “Enjoado”), não era popular no Ministério da Aeronáutica, onde eram tomadas as decisões políticas. Dowding era obrigado a lutar pelos menores detalhes do seu novo sistema de defesa, inclusive o pedido de pistas de concreto, para tornar os aeródromos, de grama, utilizáveis em todas as estações. O Ministério da Aeronáutica era contra as pistas de concreto, alegando que eram difíceis de camuflar. Somente quando a guerra se tornou iminente é que as autoridades permitiram que Dowding recebesse o concreto pedido. Até então, Dowding vira-se obrigado a experimentar sementes de gramas, para assegurar-se de que nos aeródromos pelo menos fossem plantados tipos de grama mais adequado.

Em outra altercação com as autoridades do Ministério da Aeronáutica, Dowding, que lutava pela adoção de pára-brisas à prova de bala nos seus Spitfires e Hurricanes, usou um argumento inspirado: “Se os bandidos de Chicago podem andar em carros protegidos por vidro à prova de bala, não vejo por que meus pilotos também não tenham este direito”.

Mas os críticos de Dowding não conseguiam compreender por que o chefe dos caças exigia tanto requinte no planejamento, muito embora Stanley Baldwin tivesse advertido, em 1934: “Com o advento da era do avião, as velhas fronteiras desaparecem. Quando se pensa nas defesas da Inglaterra, não se pensa mais nos brancos rochedos de Dover, e sim no Reno. É ali que estão as nossas fronteiras”. A declaração de Baldwin pretendia justificar o minguado rearmamento que estava ocorrendo. Enquanto isso, Hitler construía uma força aérea capaz de colocar o exército alemão e as bases aéreas avançadas da Luftwaffe a 35 km de distância dos rochedos de Dover.

Não obstante, apesar de todas as dificuldades, Dowding construiu um sistema de defesa que, embora despreparado para lutar contra o inimigo em Calais e que não era de modo algum infalível, conseguiu salvar seu país da invasão e da derrota quando chegou a hora da prova, em 1940.

O sucesso do sistema dependia da determinação de Dowding, que estava tecnologicamente muito à frente do seu tempo, “em aplicar previdentemente a ciência às exigências operacionais”.

Controle e padronização eram as ordens do dia. Idênticas salas de operações foram instaladas nos QGs do Comando de Caças, nos Grupos e nos Setores em que Dowding dividiu seu comando. Já em 1936, Dowding compreendeu que, em caso de guerra, em caso de ataque à luz do dia, ele provavelmente estaria em inferioridade numérica e teria escassez de caças. Portanto, projetou um sistema flexível pelo qual, na área vulnerável do sul da Inglaterra, os caças poderiam ser transferidos de um setor para outro e de um grupo para outro pelo pessoal das salas de operações cuidadosamente ligados por linhas telefônicas e de teletipos.

Enquanto se esforçava por preparar a Inglaterra para suportar os ataques, Dowding sofria o drama de escassez de verba. Em 1936 ele recebeu apenas 500 libras para construir uma sala de operações experimental no salão de baile do Bentley Priory. Mais tarde, só lhe destinaram 4.500 libras para montar um QG subterrâneo a prova de bombas.

Mas tal parcimônia era perfeitamente desculpável, porque estavam sendo feitas aplicações de verbas vultosas no desenvolvimento de um importante projeto. Tratava-se do radar, direção e alcance pelo rádio, ou, como era conhecido nos seu primeiros tempos, radiogoniômetro, o escudo secreto da Inglaterra e, como se veio saber depois, a própria salvação da pátria. A nova cadeia de radar também foi posta sob o comando de Dowding, como o Grupo 60.

Estranhamente, a recém-surgida cadeia de radar que Dowding vinculou ao seu sistema de defesa surgiu da idéia, encontrada na ficção científica, de que os bombardeiros incursores poderiam ser desintegrados por um raio da morte. Em meados dos anos 30, os cientistas do órgão de defesa saíram, meio cépticos, para a pesquisa de tal raio e comunicaram, depois de muito trabalho, a impossibilidade de sua geração. Mas eles escondiam um trunfo: se era um contra-senso fazer um feixe de rádio funcionar como um matador magnético, esse mesmo feixe, como radiogoniômetro de longo alcance, era uma possibilidade prática.

Entre os consultores científicos da RAF encontrava-se Robert Watson-Watt, que criara um meio de localizar trovoadas pelo rádio. Ele, que fizera ondas de rádio saltar das tempestades e da ionosfera, conseguiu também que elas saltassem de aviões distantes. Acontece que os primeiros experimentos de Watson-Watt foram feitos quando Dowding era responsável pela pesquisa e desenvolvimento para a Força Aérea. Assim, quando Dowding se mudou para o recém-criado Comando de caças, ele ajudou a implantar a cadeia de torres de 150m de altura que estavam sendo construídas nas costas leste e sul da Inglaterra.

Justificadamente, a Luftwaffe, que realizava pesquisas no campo da detecção de aviões a longa distância, estava cheia de curiosidade a respeito das misteriosas torres. Desconfiando de que o aparecimento dessas torres estivesse relacionado com idêntica atividade, a Luftwaffe procurou investigar.

Audaciosamente, o General Wolfrang Martini, chefe de comunicações da Luftwaffe, convencera Hermann Goering a repor no serviço ativo o aposentado dirigível “Graff Zepellin” como laboratório aéreo. A idéia era aceitável, porque nenhum dos aviões existentes poderia proporcionar os elementos essenciais ao reconhecimento que pretendia fazer, que eram o raio de ação, o espaço e a maneabilidade que lhe permitissem parar, olhar e ouvir.

Apesar disso, a espionagem fracassou. O dirigível fez vários cruzeiros pela costa da Inglaterra, mas seu complicado equipamento não funcionou de maneira adequada e, depois de uma última tentativa, feita em agosto de 1939, a Luftwaffe abandonou o trabalho de reconhecimento.

Preocupada com seu importante papel na invasão da Polônia, Noruega, Dinamarca, França, Holanda e Bélgica, a Luftwaffe de desinteressou das torres de radar britânicas. Excessivamente confiante por causa das vitórias continentais que colher e na expectativa de vir proximamente a ditar os termos de paz com a Inglaterra, ou, na pior das hipóteses, outra conquista rápida, a Luftwaffe não deu muita atenção à rede de radar de Dowding na avaliação que fez das possibilidades de sobrevivência da Inglaterra após a queda da França.

A confiança da Luftwaffe, em última análise insensata, parecia bastante lógica no começo do verão de 1940. A RAF sofrera seriamente na França e, segundo Goering imaginava, não estava em condições de se reequipar e defender a Inglaterra contra ataques aéreos contínuos. Mas a Luftwaffe ainda não se sentia familiarizado com o espírito de “bulldog” de Churchill, nem tinha conhecimento das providências tomadas pelo velho guerreiro para salvar os caças existentes e para que fossem construídos novos aparelhos enquanto a França estava caindo.

Para acelerar a produção de Spitfires e Hurricanes, o Primeiro-Ministro recrutou o que chamou de “a energia vital e vibrante” de Lorde Beaverbrook, o proprietário, canadense de nascimento, do jornal Daily Express, nomeando-o Ministro da Produção Aeronáutica.

Para conservar os Spitfires e Hurricanes, o Primeiro-Ministro proibiu a saída de reforços da RAF para a França. A medida, tomada na oportunidade em que a França agonizava, talvez tenha sido a mais pesarosa decisão de Churchill em toda a sua longa e aventurosa existência. Sem o comparecimento dramático de Dowding a uma reunião do Gabinete de Guerra, é de duvidar que Churchill a tivesse autorizado.

Estarrecido com a volumosa perda de caças da RAF na França - 250 Hurricanes entre 8 e 18 de maio - Dowding solicitou permissão para comparecer perante Churchill e seus Ministros. A 13 de maio ordenaram-lhe que enviasse mais 32 Hurricanes ao outro lado do canal, e a 14 de maio entrou em cogitação a possibilidade de serem transferidos mais 10 esquadrões, ou 120 Hurricanes, após um pedido urgente do Primeiro-Ministro francês, Paul Reynaud.

Dowding não estava só em suas preocupações a respeito da situação. Os chefes de Estado-Maior da Marinha Real, do Exército Britânico e da RAF comunicaram ao Primeiro-Ministro, sob o agourento título de Estratégia Britânica Numa Eventualiade Certa: “Enquanto nossa força aérea existir, a Marinha e Força Aérea, juntas, deveriam ser capazes de impedir que a Alemanha leve a cabo a invasão. Na eventualidade de vir a Alemanha a conquistar a superioridade aérea absoluta, a Marinha poderia impedir a invasão por algum tempo, não por um período indefinido. Nessas circunstâncias, nossas forças de terra serão insuficientes para conter as forças de invasão. O ponto crucial da questão é a superioridade aérea. Uma vez que a Alemanha a tenha conseguido, poderá tentar subjugar o país apenas pelo ar. Teremos que ser capazes de infligir, diariamente, baixas ao inimigo que o impeçam de produzir castigos que nos seja impossível suportar, embora não se possa garantir que nossos grandes centros industriais não venham a sofrer danos sérios provocados por ataques noturnos. Se o inimigo realizar ataques noturnos contra nossa indústria aeronáutica, é provável que possa provocar a paralisação de todo o trabalho”.

“Enquanto nossa Força Aérea existir...” Tudo se apoiava nessa frase. Dowding não podia ficar de lado e permitir que suas pequenas poupanças, apenas 39 esquadrões de Spitfires e Hurricanes, fossem esbanjadas no que era obviamente uma causa perdida. Com menos de 1.300 pilotos - cerca de 150 abaixo dos efetivos - ele também tinha de preservá-los. A 15 de maio, o marechal-de-Ar entrou na sala do gabinete; colocando um gráfico explanatório sobre a mesa, Dowding disse ao Primeiro-Ministro: “Se a taxa atual de baixas se mantiver por mais uma quinzena, não teremos um único Hurricane na França, ou neste país”. Os Spitfires não foram mencionados; eram tão preciosos que, depois da evacuação do exército britânico de Dunquerque, não se pensava em deixar sair da Inglaterra um Spitfire sequer.

A 19 de maio, Churchill determinou que nenhum outro esquadrão de caças fosse para a frança, exceto para dar cobertura à evacuação. A resposta de Churchill ao apelo de Dowding permitiu ao Comando de Caças ajudar a Inglaterra a realizar a evacuação de Dunquerque, entre 26 de maio e 4 de junho. Mesmo assim, Dowding perdeu mais de 430 Spitfires e Hurricanes entre 10 de maio de a retirada de Dunquerque.

As perguntas que todos faziam eram sobre o tempo de hesitação de Hitler e se a nomeação de Beaverbrook como Ministro da Produção Aeronáutica demoraria muito a dar resultados. Felizmente para a Inglaterra, enquanto Hitler dizia a von Rundstedt, na França, “que faria a paz com a Inglaterra e lhe ofereceria uma aliança. A Alemanha dominará a Europa e a Inglaterra, o mundo exterior”, Beaverbrook punha a sua varinha de condão sobre as fábricas de caças.

Seus expedientes, ainda que pouco ortodoxos, eram divulgados pelo seu próprio jornal, e faziam bem ao moral do povo. Pouco antes de assumir o ministério, Beaverbrook lançou o seguinte apelo “Às Mulheres na Inglaterra”: “Dêem-nos o seu alumínio... Nós transformaremos frigideiras e panelas em Spitfires e Hurricanes, Blenheims e Wellingtons. Portanto, peço a todos que tenham panelas, cabides, sapateiras, peças de banheiro... feitos total ou parcialmente de alumínio... que os levem ao QG local dos Serviços Voluntários Femininos”.

Toda a imprensa fez ressoar o apelo. “Da frigideira ao Spitfire” era a manchete inevitável. Na prática, as montanhas de caçarolas feitas pelas donas de casa contribuíram muito pouco para a produção de caças, mas o apelo de Beaverbrook valeu seu peso em, peças de banheiro em termos de moral civil. A gente comum, mulheres, nas suas cozinhas, aturdidas pelo rumo dos acontecimentos, achavam que pelo menos aí estavam fazendo algo que podiam fazer. Caças, caças e mais caças... a sobrevivência nacional dependeria dos Spitfires e Hurricanes. No mês anterior à nomeação de Beaverbrook, a 14 de maio. como Ministro da Produção Aeronáutica, ou Ministro dos Aviões, como caracteristicamente preferia ser conhecido, as fábricas haviam construído 256 caças de primeira linha. No crítico mês de setembro de 1940, quando Londres era vítima de bombardeios aéreos diários e as baixas da RAF atingiram o ponto culminante, a organização de produção e reparos de Beaverbrook entregou 467 caças.

Para obter resultados tão espantosos com tanta rapidez - uma produção média, mensal, de quase 500 caças - Beaverbrook enlouqueceu os “malditos marechais-do-ar”, como chamava coletivamente o Estado-Maior da força aérea, no Ministério da Aeronáutica. Ele deitou fora seus programas de produção, meticulosamente preparados e equilibrados, muito bonitos no papel, mas totalmente irrealistas  naquele momento de desespero. Dois velhos militares consideravam o fato uma intromissão imprudente de um estranho e o Marechal da RAF, Sir John Slessor, mais tarde comentou: “Como se os amaldiçoados marechais-do-ar não soubessem definir o que bom para eles, o novo ministro não perdeu tempo em preparar um novo programa, baseado unicamente na capacidade de produção da indústria de aviões; ele tinha pouca ou nenhuma relação com as exigências estratégicas e a sua idéia principal (talvez natural em quem não seja versado em problemas da aviação) concentrava-se na produção de quantidades enormes de caças, sem atentar para o efeito desse procedimento sobre outros tipos, igualmente vitais. Coisas essenciais, embora menos espetaculares, como aviões de treinamento, peças sobressalentes e um meticuloso plano de produção de equipamento auxiliar, por não impressionarem muito num gráfico, tendiam a ser postas de lado”.

Em todos os departamentos de guerra do governo, os funcionários civis mais graduados ficavam chocados com a exibição de pirotécnica administrativa de Beaverbrook. Eles mal se haviam recuperado do golpe sofrido quando este sujeito extraordinário suprimiu do calendário vigente em seu ministério os feriados de verão, alegando que não permitiam as circunstancias de 1940, quando descobriram que o homem esperava que eles largassem a caneta e usassem o telefone para botar as coisas a funcionar. O pior é que ele convocou para o seu setor alguns homens de negócio e engenheiros de produção inteligentes, notadamente Patrick Henesy, então Gerente-Geral da Ford Motor Company da Inglaterra, e Trevor Westbrook, recém-chegado de Victória e a quem encontrara num campo de golfe, desempregado.

Em suas relações com os Estados Unidos, onde ele já estava comprando aviões antes do fim de maio, Beaverbrook, o canadense que falava praticamente a mesma língua, agia com igual rapidez e impetuosidade. Quando Henry Ford interveio pessoalmente num negócio e se recusou a permitir que sua companhia construísse motores Rolls-Royce Merlin, alegando que eram armas de guerra, Beaverbrook transferiu o pedido para a Packard. Ignorando as advertências dos especialistas, que diziam que a Packard era uma empresa pequena demais para o pedido, Beaverbrook disse simplesmente: “Ampliem-na”, e eles assim o fizeram.

Em combate


Chegou o mês de julho e por volta do dia 10, que é para os britânicos o dia da Batalha da Inglaterra, a Luftwaffe, ainda contida por Hitler, “brincava” com a navegação no Canal da Mancha e na convidativa zona de invasão na costa sul inglesa. Para o Alto Comando germânico a Inglaterra ainda estava em estado de choque, depois da experiência de Dunquerque, e incapaz de compreender a verdadeira situação em que se encontrava. Ela talvez ainda mudasse de opinião e negociasse a paz. Enquanto isso, só poderia ser vantajoso importunar e estender as defesas de caça da RAF, ou o que restava delas.

Debaixo de grande excitação das repousadas tripulações da Luftwaffe na costa norte da França, Bélgica e Holanda, os caças foram armados e os bombardeiros, carregados. A Inglaterra continuava normalmente conduzindo seus comboios pelo Canal e os portos e bases navais britânicos do sul da Inglaterra permaneciam inviolados. Fosse de paz ou não a situação, a triunfante Luftwaffe poderia muito bem demonstrar que esse canal já não era mais uma vala inglesa; na verdade, que o canal não era mais inglês. Para a força aérea alemã, a tarefa parecia fácil. Com bom tempo, era possível ver-se claramente os rochedos de Dover dos postos de observação da Luftwaffe e os navios que passavam por eles balançavam como barcos de brinquedos num lago de parque. Alvos fáceis. Bastaria jogar algumas pedras e eles afundariam. A 10 de julho, a Luftwaffe escolheu um comboio.

Lentamente, logo depois do almoço, os navios mercantes do comboio levantaram âncora nas proximidades de Dover e, no Comando de Caças, Dowding viu imediatamente que algo de muito especial estava por acontecer. O Radar - ainda conhecido como radiogoniômetro, RDF - captara grande quantidade de aviões atrás de Calais. Por semanas, após Dunquerque, a RAF esperara, pensando no momento em que Hitler, desiludido de qualquer possibilidade de transacionar um acordo com os britânicos, desencadearia o terror contra Londres, mas ele não viera. Entretanto, para o Comando de Caças, em Stanmore, e para o Comando do Grupo 11, em Uxbridge, parecia haver chegado o momento da grande aventura.

Mesmo assim, o Vice-Marechal-do-Ar Keith Park, o neozelandês líder do Grupo 11, reagiu com cautela. Duzentos Spitfires e Hurricanes, ou cerca de um terço da força de defesa de primeira linha da Inglaterra, estavam sob seu comando, em 19 esquadrões, 6 de Spitfires e 13 de Hurricanes. Park compreendia que um erro da sua parte pudera causar a derrota da Inglaterra na guerra em poucas horas. Por isso, tão logo verificou que este não era o dia fatídico, que o alvo era o comboio que cruzava o Canal, a RAF reagiu cautelosamente. Seis Hurricanes do Esquadrão 32 já estavam patrulhando na vizinhança e uma força de mais 20 Hurricanes e Spitfires, dos Esquadrões 11, 74, 64 e 56, recebeu ordens de decolar para apoiá-los.

Mas o comboio já estava sendo atacado antes mesmo que os 6 pilotos de caça britânicos em patrulha pudessem chegar lá e, quando chegaram, viram um espetáculo aterrador. Cerca de 70 bombardeiros e caças da Luftwaffe caíram em cima do comboio como abelhas num pote de mel. Para os pilotos dos Hurricanes, não havia como esperar reforços, e mergulharam: 6 contra 70.

Quando a ajuda chegou, os Hurricanes já haviam obrigado o inimigo a formar uma aspiral defensiva, de três camadas, acima dos navios: Me 109 em cima, Me 110 no meio e os bombardeiros Do 17 embaixo.

Entre os elementos de reforço vinham 8 Spitfires do Esquadrão 74. Subindo a 3.900m, 300m acima dos Me 109 de proteção, os Spitfires mergulharam pelo cilindro; ao chegar ao nível do mar, a maioria deles já havia gasto toda a munição. O comboio prosseguiu viagem, tendo sofrido apenas uma baixa, um navio pequeno, mas a Luftwaffe perdera 4 caças para 3 da RAF. A perda de 3 caças num só dia talvez não chegasse a preocupar muito, desde que Hurricanes e Spitfires novos e reformados estivessem chegando ao Comando de Caças, enviado pela organização de Beaverbrook num ritmo de mais de 100 aparelhos por semana. Mas, com os 15 caças perdidos nos 7 dias anteriores, isto preocupava Dowding. Mas, suponhamos que a Luftwaffe se lançasse contra as estações de radar, os aeródromos dos caças, as fábricas de aviões e contra Londres? Então, era de recear que o total das perdas de uma semana no ar, em terra e nas fábricas deixasse a Inglaterra aberta à invasão.

Assim, a iniciativa da Luftwaffe, a 10 de julho, criou um dilema terrível para os defensores do mundo livre. Parecia que as alternativas eram deixar que os navios em alto mar corressem o risco, com uma cobertura aérea apenas nominal, às vezes sem nenhuma, ou então arriscar tudo no mar, em vez de poupar os caças para a verdadeira hora do perigo. Dowding tomou o cuidado de advertir a Marinha de que os comboios talvez tivessem de se arranjar sozinhos.

O sol estava nascendo, a 11 de julho, o segundo dia da batalha, quando o dilema se repetiu. A Frota Aérea 3 experimentaria a mira contra os navios de um comboio britânico.

Naquele dia, os bombardeiros de mergulho, Stuka, de von Richthofen deviam atacar um comboio que rumava para leste, pela Baía de Lyme. Dez Ju 87, escoltados por 20 Me 109 das inquietas unidades de von Richthofen, decolaram da vizinhança de Cherburg; o radar os captou. Três Hurricanes do Esquadrão 501, de Warmwell, situado no setor mais ocidental de Park, o setor de Middle Wallop do Grupo 11, receberam ordem de dar combate ao inimigo, apoiados por 6 Spitfires do Esquadrão 609.

O três Hurricanes enfrentaram os Me 109, que lhes eram superiores, na proporção de quase 7 para 1. Um Hurricane logo foi derrubado: perderam-se dois Spitfires, um Stuka foi destruído e o comboio prosseguiu viagem intato.

Nos aeródromos, os jovens pilotos dos esquadrões de caça, doidos para enfrentar o inimigo com todo o entusiasmo e impetuosidade da juventude, começavam a irritar-se. Por que aqueles burocratas idiotas os estavam mandando em grupos de três e de seis para enfrentar grupos inimigos muito mais numerosos, quando todos estavam ávidos por entrar em combate? Os pilotos do Esquadrão 609 deram vazão aos seus sentimentos a respeito, consignando no livro de registro de operações: “Os pilotos se ressentem amargamente com o fato de estarem sendo enviados pequenos grupos de caças para enfrentar a intensa atividade inimiga na área de Portland. O envio freqüente de apenas uma seção, no máximo uma esquadrilha, para fazer interceptação, apenas para se verem em desesperada inferioridade numérica ante os caças inimigos que atuam como escolta dos bombardeiros, é desencorajador, porque o caça britânico então se vê incapaz de cumprir a tarefa de destruir os bombardeiros, sendo obrigado a travar apenas ação defensiva”.

Para o povo britânico, que ignorava que a RAF pudesse reunir mais que as pequeníssimas formações para lutar como Davi contra Golias, toda sugestão de desvantagens era um deleite.

A 14 de julho, com o prosseguimento dos ataques aos comboios, a nação foi presenteada com um emocionante comentário radiofônico transmitido dos rochedos de Dover, que confirmou a crença popular de que, por mais que a RAF fosse numericamente inferior, ela era um tremendo adversário para o seu poderoso inimigo. Todos se sentiam tranqüilos diante da certeza de que a qualidade era mais importante que a quantidade. O repórter radiofônico Charles Gardner berrou ao microfone da BBC: “Bem, agora os alemães estão bombardeando o comboio com mergulhos. Tem um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete bombardeiros alemães - Junkers 87. Lá vai um agora contra seu alvo. Bomba - não, aí esta - ele errou o alvo... Não acertou um só navio. Lá vai um caindo, deixando um grande rastro. Não dá para ver bem esses caças por muito tempo. Só se vêem quatro aparelhos rodopiando e se ouvem pequenas rajadas de metralhadora, e quando se consegue ver o aparelho, ele já se foi... Agora há uma luta encarniçada lá no alto - temos três, quatro, cinco, seis aparelhos rodopiando e fazendo curvas. Ouçam as metralhadoras. Ouçam, uma, duas, três, quatro, cinco, seis... Vem vindo, um no encalço do outro. Lá vão eles; sim, eles estão sendo perseguidos, e como. Três Spitfires perseguem três Messerschmitts... Puxa! Olhem só como eles vão! E olhem como os Messerschmitts - puxa, é espetacular! E lá vai um Spitfire bem atrás dos dois primeiros - ele vai pegá-los! É, sim rapaz! Nunca vi nada tão bom... os rapazes dos caças da RAF os pegaram firme!”.

Se a batalha aérea que se realizava ao longo da costa, bem à porta da Inglaterra, era algo impar na guerra, seu registro em disco constituía também uma novidade, e provocou enorme controvérsia. Enquanto alguns afirmavam ser errado transmitir pelo rádio o desenrolar da luta aérea como se fosse um acontecimento esportivo, a maioria concordava com o ponto de vista da imprensa, de que era como se o instinto esportivo do povo britânico tivesse chegado aos rochedos de Dover.

Para os perplexos pilotos britânicos, que vinham sendo reprimidos, a transmissão foi motivo de mais irritação ainda. “Por que é que não podemos atacá-los?” era a pergunta que corria pelos ranchos dos esquadrões.

Mas, em suas bases, os pilotos alemães estavam exultantes. A julgar pelo tipo de oposição que vinham enfrentando, a RAF estava realmente liquidada. Certo que os pilotos dos poucos caças com que se bateram mostraram-se temerários até, mas, poderiam suas tênues fileiras sofrer baixas?

A alusão ao esporte não era monopólio britânico. No estágio inicial da batalha, os pilotos dos Me 109 levavam o instinto da caçada para suas carlingas; instinto bastante estimulado pelo seu comandante-chefe, Hermann Goering, que convidava os mais bem sucedidos ases de caça para descansar em seu pavilhão de caça na Prússia.

Contudo, tais convites nem sempre eram tão bem aceitos como o Marechal do Reich julgava. Não porque os pilotos tivessem escrúpulo em abater uma peça de caçada mas por temerem que durante a breve ausência da frente de combate os pontos conquistados pudessem ser superados. Assim, quando Werner Molders, convidado por Goering após derrubar o 40° avião inimigo, se despedia do Marechal do Reich, depois de três dias em sua propriedade, o piloto persuadiu-o a reter o seu grande competidor, Adolf Galland, por igual período.

Contudo, apesar da enorme vantagem que levavam no inicio da batalha, os pilotos alemães não demoraram a aprender a temperar diligência com cautela. Galland, em seu livro, “Os Primeiros e os últimos”, registrou o seguinte: “Qualquer encontro com caças britânicos exigia de nós o máximo... Só posso expressar a mais elevada admiração pelos seus pilotos que, embora em desvantagem técnica, lutavam com bravura e infatigavelmente. Eles, sem dúvida, salvaram a pátria nessa hora crítica”.

A desvantagem técnica a que ele se refere é que no inicio da batalha os Hurricanes e Spitfires eram mais lentos que, por exemplo, o Me 109. Churchill assim resumiu o problema: “Os alemães eram mais velozes e tinham melhor razão inicial de subida; os nossos são mais manobráveis e mais bem armados”.

A verdade, apesar da disparidade dos números em combate, a contagem, avião por avião, era desfavorável à Luftwaffe. Nos primeiros 9 dias da Batalha da Inglaterra os alemães perderam 61 aviões, e 28 o Comando de Caças. E então, no 10° dia de luta, o primeiro de uma sucessão de desastres a que viria sofrer atingiu a RAF, quando foram destruídos 6 caças Defiant, de um esquadrão composto por 8 aviões, perdendo a Luftwaffe apenas 2, a 19 de julho.

Descrever o Defiant como um caça é realmente correto, mas estes aviões, com suas metralhadoras montadas em torre e com sua forma curta e grossa, integrantes dos Esquadrões 141 e 264, embora não fossem obsoletos, no sentido aplicado aos biplanos Gladiator, do Esquadrão 247, estacionado perto de Plymouth, estavam nitidamente deslocados no meio dos Hurricanes e Spitfires.

Tão ansiosos por entrar na luta quanto seus companheiros mais afortunados, dos esquadrões de aviões de um só tripulante, pilotos e artilheiros do Esquadrão 141 exultaram quando receberam ordens de partir da Escócia para o Sul. O entusiasmo demonstrado não era de todo infundado, porquanto o Defiant já tinha desfrutado de um dia de glória, no combate com os Stukas sobre Dunquerque.

Na manhã de 19 de julho, 9 aviões Defiant voaram de West Malling para o aeródromo costeiro de Hawkinge. Pouco depois do almoço, veio a ordem: patrulhar a 1500m de altitude ao sul de Folkestone. Mas não duraram muito, pois na direção do sol, e a mais de 3000m acima deles, 20 Me 109 mergulharam contra a patrulha. Em poucos momentos, 5 deles haviam caído ao mar e o 6° chocou-se contra a costa.

Na manhã seguinte, mais 70 Defiants uniram-se ao Esquadrão - de acordo com a promessa de Beaverbrook de substituir as perdas assim que ocorressem. No dia seguinte, duas semanas depois que o Esquadrão 141 chegara, entusiasmado, da Escócia, ele retornou ao norte, deixando para trás 6 aparelhos, porque não havia aviadores para pilotá-lo.

Com o passar dos dias de julho, incidentes como a destruição dos Defiants encorajaram falsamente as tripulações da Luftwaffe, levando-as a crer que a RAF estava sendo sistematicamente vencida, entusiasmando-se ainda mais por encontrarem tão poucos Spitfires e Hurricanes.

Registrou-se também sensível redução no número de navios mercantes britânicos, durante o dia, nas áreas do Canal da Mancha sujeitas a ataque. Se esse poderio marítimo pudesse ser expulso do Canal, como parecia estar acontecendo, então, se houvesse necessidade, a invasão seria realizada praticamente sem oposição!

Mas os defensores não ignoravam nada acerca da situação durante esses quentes dias de julho. Por volta de 23 de julho, a Luftwaffe já havia perdido 85 aparelhos, enquanto que a RAF registrava 45 baixas, mas nem Dowding nem Park tinham ilusões sobre o apuro em que estavam metidos. Eles sabiam que o inimigo só estava brincando com eles e temiam o que poderia acontecer ao Comando de Caças se o inimigo utilizasse todos os seus recursos. Acontece que a Luftwaffe privara temporariamente a Marinha Real do domínio do Canal da Mancha, humilhação esta que se tornou maior com os acontecimentos de 25 de julho.

Após um dia de ataques simultâneos da Frota Aérea 2 contra comboios no estuário do Tâmisa e no Passo de Calais (o Estreito de Dover, como o chamam os ingleses), 60 bombardeiros, escoltados por caças, hostilizaram um comboio de 21 navios mercantes, a maioria dos quais navios carvoeiros. Cinco deles foram logo postos a pique e 6 ficaram avariado, numa série de ataques precisos e ferozes de bombardeiros de mergulho. Para provar que a Alemanha estava desafiando a Inglaterra pelo comando permanente do Canal, uma frota de torpedeiras fez-se ao mar em plena luz do dia; tornou a fazer-se ao mar à noite, e acabou com três dos navios avariados.

Seguiu-se outra humilhação, no dia 27 de julho, quando a Luftwaffe afundou dois destróieres ao largo de Dover e avariou um terceiro. Depois que um terceiro destróier foi afundado, a 29 de julho, os destróieres foram retirados para a segurança relativa e temporária de Portsmouth.

A superioridade aérea, primeiro sobre o canal e depois sobre o sudeste da Inglaterra, era o requisito estabelecido pela Alemanha para a obtenção da paz, com ou sem invasão, e o Alto Comando ficou muito encorajado pelos resultados das operações exploratórias da Luftwaffe. Mas, enquanto a RAF considerava que a Batalha pela Inglaterra já havia começado, a Luftwaffe estava apenas sendo vigorosamente contida, impaciente por intensificar as operações.

A 30 de julho Hitler instruiu pessoalmente a Goering para que colocasse a Luftwaffe em estado de prontidão para o grande ataque, o “ataque das águias”, como os planejadores do estado-maior alemão o denominavam. Hitler ordenou que a Luftwaffe se preparasse “para destruir as unidades aéreas, as organizações de terra e instalações de suprimentos da RAF e a indústria de armamentos aéreos britânica”.

Hitler só precisava sussurrar o codinome “Dia da Águia” para que tivesse inicio um ataque sem precedente na história da guerra.

Na Inglaterra, o povo, felizmente, ignorava a diretiva do Fuhrer. A vida em Londres era espantosamente tranqüila, considerando-se o perigo que a capital corria. A 3 de agosto, a equipe da RAF vencia um jogo amistoso de criquete contra o Corpo de Bombeiros de Londres. No mesmo dia, o aerobote Clare, da British Overseas Airways, fez seu primeiro vôo de serviço de passageiros para o Novo Mundo. Foi um marco e uma indicação de que o Atlântico não deixaria o Novo Mundo de quarentena contra a infecção européia durante muito tempo.

A 8 de agosto, quando o Clare retornava com um grupo de pilotos americanos contratados pelo Ministério de Produção Aeronáutica para transportar aviões novos e reparados, das fábricas para os aeródromos, Goering e demais comandantes da Luftwaffe estavam reunidos em Karinhall, para completar os planos para o ataque das águias. Tomando conhaque, fumando charutos e divertindo-se com seus trenzinhos de brinquedo na atmosfera de faz-de-conta da faustosa mansão de Karinhall, Goering e seus líderes da Frota Aérea convenceram-se de que, com mais 4 dias de bom tempo, a Luftwaffe poderia conquistar a superioridade aérea sobre o sudeste da Inglaterra para finalmente pô-la de joelhos. Certo que as façanhas da Luftwaffe no Canal da Mancha, no dia 8 de agosto, pareciam corroborar este confiante ponto de vista.

Nas primeiras horas de 8 de agosto, a Marinha Real despachou um comboio de 25 navios mercantes pelo Passo de Calais, esperando fazê-lo passar pelos perigosos estreitos sob a proteção da noite. A Marinha Real vinha desde julho, quando passaram a ser muito atacados, reforçando a defesa dos comboios. Este, de 25 navios mercantes, era acompanhado de navios de balão de barragem e destróieres antiaéreos.

Mas o inimigo também estivera ocupado desde o começo de julho e construíra uma estação de radar em Wissant, na costa do canal fronteira a Dover, providência que o Almirantado ignorava quando tentou fazer o comboio atravessar os estreitos e penetrar em águas mais livres.

Das suas tocas, na costa francesa, surgiu uma força de velozes torpedeiras, que afundou 3 navios e avariou 2 outros antes o amanhecer. Mais tarde, naquele mesmo dia, o restante do comboio estava navegando nas vizinhanças da Ilha de Wight quando a Luftwaffe o descobriu.

A Luftwaffe veio duas vezes, trazendo cada leva mais de 80 bombardeiros de mergulho Stuka, escoltados pelo triplo de aviões de caça, e atacavam com “50 de cada vez”. Era um desafio ostensivo ao Comando de Caças - “venha até aqui e lute para proteger seus navios”, o tipo de desafio em que a Luftwaffe confiava para reduzir o número de Spitfires e Hurricanes da RAF e apressar o fim da guerra.

Sete esquadrões, dos 10° e 11° Grupos, decolaram às pressas. Para o Cap. J.R.A Peel, que comandava o Esquadrão 145 de Hurricanes, os Stukas não eram mais que um volumoso conjunto de pequenos pontos pretos quando os caças britânicos mergulharam. Os pontos foram-se tornando maiores até ganhar a forma de abutre característica do Stuka, o bombardeiro de mergulho Ju 87.

“Cuidado com os Me 109!”. Os pilotos dos Hurricanes, no momento de precipitar-se sobre suas presas, ficaram na mira dos caças alemães; os caçadores haviam-se transformado em caçados. Colocados na direção do sol, os pilotos dos Me 109, os anjos da guarda dos Stukas, haviam percebido o que estava por acontecer. Em poucos segundos eles se metiam atrás dos Hurricanes, obrigando os pilotos da RAF a romper a formação para se defenderem. O Cap. Peel fez o seguinte relato do ataque que na oportunidade sofreu de dois Me 109: “Os caças inimigos estavam girando, mergulhando e subindo. Disparei duas rajadas de 5 segundos contra um deles e o vi cair no mar. Então persegui outro, numa cabragem violenta, e o atingi quando ele estolou”. Mas eles atingiram Peel, que caiu no mar, perto da costa inimiga, em Boulogne. Quando os barcos de salvamento informaram que talvez tivessem de voltar, o Esquadrão de Peel comunicou: “Aos barcos de salvamento: vocês serão metralhados por nós se voltarem”. O Cap. de Esquadrão foi salvo.

Na batalha furiosa de 8 de agosto, os Hurricanes e Spitfires derrubaram 31 aviões inimigos, perdendo 19, números estes que superaram os de qualquer dia de luta, desde 10 de julho. O comboio prosseguiu viagem, mas perdeu 6 navios para as torpedeiras e bombardeiros de mergulho.

A batalha estava ficando quente para os dois lados e a excitação e a confiança cresciam nas carlingas britânicas, agora que os pilotos vinham sendo, gradualmente, lançados ao combate em números cada vez maiores. Também havia mais compenetração. Morte, desfiguração por queimaduras e graves ferimentos provocados pelos encontros dos esquadrões de caça começavam a dar aos jovens pilotos, mal saídos da adolescência - já que Dowding, como regra geral, achava que os comandantes de esquadrão de caça não deviam ter mais de 26 anos - a certeza de que estavam empenhados em algo imensamente mais sério do que aquilo que os comentários de Charles Gardner sugeriam, isto é, uma competição esportiva. Qualquer sensação de irrealidade, só entre os elementos do povo dotados de espírito esportivo tão desenvolvido que nem mesmo a sombra de Hitler poderia neutralizar.

Tradicionalmente a caça ao galo silvestre começava a 12 de agosto. A BBC explicou que era trabalho de guerra de importância nacional e o Rei Jorge VI generosamente ofereceu as aves caçadas em suas propriedades aos hospitais militares, e não aos membros da sua família, como era o costume de tempo de paz.

A importância do dia 12 de agosto no calendário esportivo britânico não passou despercebida para a Luftwaffe, que reconheceu a “grosseria nazista” em abater 90 aviões da RAF no dia errado - 11 de agosto. A aritmética da Luftwaffe era tão errada quanto certo o conhecimento da tradição britânica revelado. Ela perdera 38 aviões, contra 32 da RAF. Contudo, o crescente índice de perdas da RAF era reflexo do lançamento de número cada vez mais elevado de caças em combate.

A 12 de agosto, os boletins meteorológicos comunicaram que a tendência do tempo era para melhorar mais, o que sugeria que Hitler pudesse disparar o há muito esperado codinome “Dia da Águia!”. O dia 12 de agosto amanheceu claro e límpido. De quando em quando, um ligeiro nevoeiro apenas se insinuava e, enquanto as primeiras aves da temporada eram abatidas nas charnecas britânicas, a Luftwaffe aproveitou a favorabilidade do tempo para uma nova atividade, tentando pela primeira vez destruir as estações costeiras de radar e os aeródromos de linha de frente do sistema de controle de defesa a que estas estações serviam.

A eficiência do sistema se devia à obstinada insistência de Dowding, antes da guerra, no uso de comunicações perfeitas, em suma, no verdadeiro controle. Embora de modo geral as instruções partissem do QG do Comando de Caças, muitas das decisões mais críticas, tomadas durante a batalha, saíram do QG do Grupo 11 do Vice-Marechal-do-Ar Park, que recebeu toda a força do ataque.

Ninguém que visitasse o Grupo 11, em Uxbridge, em 1940, saía sem uma impressão muito forte do que ali se passava, e, Winston Churchill não foi exceção! “A sala de Operações do Grupo era como um pequeno teatro, com cerca de 18m de largura e dois andares de balcões laterais. Tomamos lugar no primeiro pavimento. Lá no meio da sala, a mesa do mapa em grande escala, cercado por uns 20 jovens, homens e mulheres, altamente treinados, com seus assistentes telefonistas. Defronte de nós, cobrindo toda a parede onde deveria ficar o pano de boca do teatro, erguia-se um gigantesco quadro-negro, dividido em seis colunas de lâmpadas elétricas, representando as seus estações de caça. A cada um dos seus esquadrões correspondia uma subcoluna, também dividida por linhas laterais. Assim, a fileira inferior de lâmpadas mostrava, quando acesas, os esquadrões que estavam “De Prontidão” com dois minutos de aviso. A fileira acima, os de “Prontidão” em 5 minutos; a seguir vinham os “Disponíveis”, 20 minutos, e depois os que haviam decolado; a fileira seguinte, os que comunicaram haver avistado o inimigo e a seguinte - com luzes vermelhas - os que se encontravam em ação, por fim, a fileira de cima, os que estavam retornando à base. Do lado esquerdo, numa espécie de caixa de vidro, estavam 4 ou 5 oficiais cuja tarefa era pesar e medir as informações recebidas do nosso Corpo de Observadores, na época integrado por umas 50.000 pessoas, homens e mulheres de diversas idades. O radar ainda estava na infância, mas avisava de incursores que se aproximavam da costa e os observadores, com binóculos e telefones portáteis, eram a nossa principal fonte de informações sobre o inimigo que sobrevoava o local. Milhares de mensagens eram recebidas durante o desenrolar de uma ação. Essas mensagens eram logo passadas a pessoal experimentado, que as distribuía por inúmeras salas situadas no QG subterrâneo, que as selecionava rapidamente e de minuto em minuto as enviava aos cartógrafos e ao oficial supervisor, na caixa de vidro. Em um boxe também de vidro, situado do lado direito da sala, permaneciam oficiais do Exército, que passavam as seus elementos a atividade de nossas baterias antiaéreas...”Churchill.

Só depois de várias semanas de observação é que os comandantes de Frota Aérea, Kesselring e Sperrle, sentiram plenamente a importância das altas torres de radar - os olhos desse sistema - que o “Graff Zeppelin” investigara tão mal. Ainda assim as frotas aéreas não estabeleceram muito bem a extensão da ajuda que o radar de Dowding podia dar na interceptação. Mas eles suspeitavam de que talvez a Luftwaffe tivesse que, primeiro, cegar pela destruição os olhos do radar e, segundo, arrasar os aeródromos avançados dos esquadrões inimigos, para que o ataque das águias eliminasse a resistência dos caças no sul da Inglaterra. A 12 de agosto, depois de ataques simulados realizados de manhã cedo do lado francês do Passo de Calais, a Luftwaffe desfechou seus primeiros golpes pesados contra o sistema defensivo de Dowding.

Por volta das 09:00 horas, pontos vitais da rede de radar, na costa sul, estavam sendo atacados, com bombardeiros e caças lançando-se contra as 6 estações situadas entre Dover e a Ilha de Wight, onde a estação Ventnor foi tirada do ar. A Luftwaffe também atacou os aeródromos costeiros de caças de Manston, Hawkinge e Lympne, em Kent. Situado bem na costa, esses aeródromos eram extremamente vulneráveis. O Esquadrão 65 de Spitfires, após sua chegada de Rochford, ainda estava em terra quando a primeira das 175 bombas caiu sobre Manston. Na refrega, enquanto os Spitfires corriam pelo aeródromo para decolar, estava o oficial-aviador B.E. “Paddy” Finucane, recém-chegado ao Esquadrão. Já naquela manhã ele estivera em ação, numa peleja com 30 Me 109, sobre o mar. Ao tentar fugir ao ataque de dois insistentes pilotos de Me 109, Finucane subiu a 9.000m e avistou mais 12 aviões inimigos. Ele narrou: “Mergulhei contra o primeiro deles, que caiu no mar, deixando um rastro de fumaça cinzenta”. Sob o céu de Manston, Finucane abateu então outro Me 109, e pôs-se a caminho de seu 32° inimigo derrubado e da promoção a Comandante de Ala (tenente-coronel-aviador).

Manston, Hawkinge e Lympne sofreram seriamente com os ataques. Em Hawkinge, os Ju 88 destruíram dois hangares, as oficinas e esburacaram o aeródromo.

Felizmente para os defensores, a atenção da Luftwaffe esteve concentrada sobre as estações de radar e os aeródromos avançados nesses ataques a alvos verdadeiramente táticos realizados no dia 12 de agosto. Foi com alivio que Dowding viu o peso do ataque ser transferido para dois comboios que cruzavam o estuário do Tâmisa e, para oeste, contra a base naval de Portsmouth.

Foi ali que teve lugar uma das incursões mais arrojadas da Batalha da Inglaterra. Voando pela estreita entrada do porto, para aproveitar uma brecha na trama de balões de barragem, veio uma força de bombardeiros de mergulho Stuka. Felizmente, para uma área repleta de alvos valiosos, como navios e instalações militares, os danos produzidos foram pequenos. “Ali havia tudo com que um aviador sonha”, transmitiu um piloto alemão depois do ataque. “navios enormes estavam ancorados e atracados. Os alvos estavam tão juntos uns dos outros que era praticamente impossível errar”. Mas eles erraram. As bombas lançadas atingiram uma cervejaria, o que, embora prejudicasse o moral da Marinha, não venceria a guerra para a Alemanha.

No fim do dia, quando na RAF eram feitos cálculos sobre o tempo que poderiam resistir, se a Luftwaffe concentrasse toda a sua potencialidade contra as estações de radar e aeródromos de caças, o Estado-Maior e as guarnições da Luftwaffe congratulavam-se por mais uma batalha vencida. Apagaram em seus mapas os alvos atacados e afirmaram haver destruído cerca de 60 caças.

Na verdade, a Luftwaffe perdeu 31 aviões e a RAF, 22. Manston ficou fora de ação até o dia seguinte, tendo-se iniciado logo os trabalhos de reparo da estação de radar de Ventnor, perto de Bembridge

A invasao da Russia

Choque de armas


É provável que a História venha a considerar o dia 27 de junho de 1941 como a data apocalíptica do calendário militar. Nenhum plano bélico do vulto da “Operação Barbarossa” havia sido até então executado, inclusive pela inexistência de técnica de organização, de transporte e de comunicações para aplicação em tão grande escala.

“Quando a ‘Operação Barbarossa’ for desfechada”, proclamou Hitler, “o mundo prenderá a respiração!”.

Mas tal não aconteceu, porque “o mundo” não estava interessado em questões muito afastadas dos círculos pessoais e quase domésticos. Os primeiros avanços da “Barbarossa” constituíram-se no maior espetáculo militar desde os acontecimentos de agosto de 1914, e a Europa Ocidental e os Estados Unidos observaram-nos com o tranqüilo desinteresse demonstrado pelo gado à passagem de um trem expresso. Mesmo aqueles que tinham por profissão a análise dos grandes eventos estavam mais interessados em calcular o grau de atrito a que o poderio alemão seria submetido antes do colapso inevitável da resistência russa, e, à medida que as pontas-de-lança blindadas alemães penetravam profundamente na Rússia, a impressão que deixava era de que a bazófia de Hitler, que a conquistaria antes do Natal, não era infundada.

“Basta arrombarmos a porta da frente”, dissera ele aos seus generais, “e toda a estrutura podre ruirá!”. Com o passar dos dias as linhas pretas estendendo-se cada vez mais para leste, nos mapas, o único exagero da declaração parecia residir no cálculo do esforço necessário contra “a porta da frente”. Além disso, não ocorria a dúvida que sempre surgira, no passado, no espírito dos militares quando diante de avanços tão rápidos. Parecia que ali não estavam ocorrendo recuos táticos, na tentativa de carregar o agressor para o fundo da armadilha - pois os exércitos russos vinham sendo enredados e aniquilados, e dentro das varreduras amplas das colunas blindadas estava o solo encharcado de sangue russo. Dezessete dias depois da primeira arremetida, 30.000 prisioneiros, 2.500 tanques, 1.400 caminhões e 250 aviões russos haviam sido capturados só na frente do Grupo de Exércitos Centro, enquanto que o serviço de reconhecimento informava que centenas de aviões russos haviam sido destruídos em terra.

Portanto, quando o Grupo de Exércitos Centro parou no Desna, no Ocidente como que morreram as esperanças quanto ao final do espetáculo, pois sensatamente era de crer que o poderio armado da Rússia estivesse virtualmente esmagado, e que os alemães estavam empenhados em trabalho de limpeza, reforçando tropas cansadas mas triunfantes, e preparando-se para a última e definitiva arremetida contra Moscou.

Os soldados alemães não viam as coisas assim, mas ao mesmo tempo não tinham que se preocupar muito com a situação. Era verdade que Ivã estava montando efetivos imediatamente à frente e já provara ser um combatente inflexível; não havia dúvida de que a luta difícil os aguardava - mas a vitória era tanto mais saborosa quanto mais duramente conquistada e, de qualquer modo, ela era coisa certa. Mais uma quinzena e o avanço recomeçaria com soldados descansados, depósitos reabastecidos e veículos substituídos - posto que haviam sido seriamente castigada, nas estradas difíceis, e muitas vezes quase inexistentes, da Rússia.

Mas o sucesso também traz problemas e, como John Keegan observa em sua brilhante análise do dilema com que Hitler se confrontava, no nível do Alto-Comando havia indecisão. O Fuhrer chegou mesmo a declarar-se nua encruzilhada difícil, no momento de decidir se visaria ao norte ou ao sul, depois de penetrar a chamada “Linha Stalin”.

Para espanto dos homens que estavam no Desna, eles viram-se privados do seu grande motivo de orgulho, e do seu escudo, o Grupo Panzer de Guderian, que, com fúria mal contida, e teve que se dirigir, em virtude de ordem recebida, para sudoeste, de volta a Kiev, enquanto que o 1o Grupo Panzer era mandado para o norte. E tinha início outra grande série de cercos, desta vez resultando em número muito maior de prisioneiros e despojos russos e numa vitória que, em termos de baixas, se constituía na maior catástrofe da história russa, e na maior realização isolada das armas alemães.

Mas perdera-se algo. Perdera-se tempo.




O Exército Vermelho


Quaisquer que fossem os motivos de Hitler para atacar a Rússia em junho de 1941, um era predominante: a certeza de que seria muito fácil a tarefa que teria de enfrentar. “Basta arrombarmos a porta da frente”, afirmava ele a Rundstedt, “e toda a estrutura podre ruirá!”

O que o teria levado a fazer uma estimativa tão errônea do seu adversário, que já era o maior poderio terrestre do mundo, como ele bem o sabia, pelas informações de seu serviço de inteligência sobre o número de soldados e a quantidade de armas que possuía? É verdade que em seus discursos e escritos ele salientava sempre a inferioridade natural dos eslavos em relação aos teutos, mas esses pensamentos destinavam-se exclusivamente ao consumo público. Hitler jamais permitiu que se contestasse qualquer julgamento que fizesse sobre questões de real importância. Poderia ele ter-se deixado influenciar pelas lembranças que tinha do desempenho do exército russo durante a Primeira Guerra Mundial, período importante da formação da vida de Hitler, quando todas as grandes vitórias da Alemanha haviam sido conquistadas na Frente Oriental, e a maior destas, que o mundo ocidental praticamente esquecera, tinha ocasionado a derrota da Rússia e a rendição das suas províncias mais ricas? Talvez sim; mas, por mais lamentável que a arte militar tzarista se tivesse revelado no começo daquela guerra, e apesar do espírito derrotista dos exércitos do Governo Provisório Russo, no fim do conflito, esses mesmos exércitos chegaram a atingir índices elevados em matéria de realização militar, tanto no ataque quanto na defesa, quando o soldado russo tradicionalmente mostrava o melhor de si. Além disso, Hitler conhecia suficientemente a História para saber que a Rússia conquistara o respeito de toda a potência européia com que havia lutado, e o Fuhrer era bastante realista para aceitar o fato de que os elementos militares russos - “volume de tropa, espaço, terra calcinada, “janeiro e fevereiro” aos quais se deveriam acrescentar também a bravura e a abnegação dos seus soldados - eram inerentes ao país e ao povo, independente do regime vigente. A longo prazo, esses elementos estavam fadados a se fazerem sentir.

Mas Hitler não pretendia que houvesse nenhum “a longo prazo”, tão convencido estava de que a guerra seria breve, em parte pela velocidade e poder de penetração de suas forças Panzer, em parte pelas vantagens que seus generais saberiam tirara dos erros que os russos cometeriam na direção das suas formações. Ele acreditava na anulação total da bravura demonstrada pelo soldado russo pelos erros de julgamento que o Alto-Comando soviético fatalmente haveria de cometer. O recente desempenho do Exército Vermelho na Finlândia, desempenho absurdamente fraco, mostrara que seu Alto-Comando estava sujeito a esses erros devido à natureza da estrutura de comando.

O Conde von Schlieffen, que traçara os planos alemães para a guerra de 1914, baseara seus cálculos na reputação de ineficiência do Estado-Maior-Geral russo. Isto levava Schlieffen a planejar um golpe decisivo contra os franceses enquanto se poderia esperar que os russos, seus aliados, ainda estariam nos estágios preliminares da mobilização.

Hitler, porém, não levou em conta coisa alguma do que estabelecia o antigo plano. Considerou, antes, uma falha fatal que admitia existir no Comando Militar Soviético, introduzida pelos líderes bolchevistas e ampliada por Stalin através de expurgo que fez realizar no exército em 1937-38.

Quanto a isto, Hitler, sem dúvida, tinha certa razão. A pergunta “Quem é que manda?” permanece não respondida entre o exército e o governo, até mesmo nos estados mais antigos; nos mais recentes, ela sugere sempre disputa, freqüentemente violenta, sobretudo nos estados de origem revolucionária. Se tal não acontecer na Rússia Soviética - um estado revolucionário que só foi salvo da extinção, provocada pela contra-revolução e pela invasão estrangeira, graças aos esforços do incipiente Exército Vermelho na Guerra Civil - é porque os líderes bolchevistas, desde os primeiros momentos da sua existência, tomaram o cuidado de encostar em cada oficial do Exército Vermelho (embora a palavra “oficial” não fosse usada, por ter sido proibida) um comissário ou assistente político para observar suas ações.

De acordo com este sistema, o comissário tinha sempre precedência sobre o soldado na área das decisões políticas, e teoricamente tinham ambos o mesmo poder de decisão na esfera dos assuntos militares. Para formar a oficialidade do Exército Vermelho, que de um punhado de “guardas revolucionários” de confiança passou a vários milhões em pouquíssimo tempo, a liderança bolchevista valeu-se dos serviços dos ex-oficiais tzaristas de formação e treinamento exatamente iguais aos daqueles que comandam os Exércitos Brancos, com os quais estavam em guerra. Essa dependência dos oficiais tzaristas continuaria até bem dentro da década de 1920, e mesmo depois que números suficientes de jovens comunistas ingressaram no exército, saídos das novas academias, ainda havia necessidade de ex-tzaristas nas fileiras superiores. Já então muitos tinham demonstrado, aparentemente para satisfação geral da liderança, lealdade para com a revolução e para com o estado comunista, entre eles Tukhachevsky, ex-oficial da Guarda do Tzar, que atingira, aos 25 anos, o comando de um dos exércitos bolchevistas, na Guerra Civil. Depois da Guerra Civil, os bolchevistas, não mais precisavam dos ex-oficiais tzaristas, que começaram a ser demitidos, mas Tukhachevsky, que dirigira o avanço sobre Varsóvia, em 1920, e esmagara o levante naval em Kronstadt, em 1921, já estava no caminho que o levaria ao comando-supremo do Exército Vermelho, na década seguinte.

Apesar da conversão de oficiais, como Tukhachevsky, à nova ideologia, e apesar da hostilidade de alguns comandantes completamente “vermelhos” ao sistema de comissariado, foi este o procedimento que o partido conservou durante toda a década de 1920 e até começos de 1930. Todavia, embora insistisse na necessidade da manutenção dos comissários, o partido pouco fazia no sentido de selecionar os elementos que se candidatavam ao cargo ou de educar os que já estavam em função. Como resultado, o comissário era em geral um funcionário honesto mas desqualificado para o exercício do cargo e em relação aos quais os líderes vermelhos mais enérgicos não revelavam muita tolerância.

O oficial soviético, por outro lado, sob a inspiração de Tukhachevsky e seus assistentes, foi gradativamente superando o comissário nas aptidões profissionais. Havia cooperação secreta com o exército alemão, cooperação que os germânicos acolhiam por precisarem realizar nas áreas russas o treinamento e as experiências com equipamento bélico proibido pelo “Tratado de Versalhes”; os russos, por sua vez, viam nessa cooperação a oportunidade de se adestrarem nas novas técnicas militares. Isto ajudou a fazer do Exército Vermelho, por volta do começo da década de 1930, um dos mais modernos do mundo. Ele começara a fazer experiências com desembarques aéreos de grandes unidades, tanto por aviões como por meio de pára-quedas, e a manobrar grandes formações de tanques, que eram essencialmente desenvolvimentos dos famosos protótipos Christie que a Rússia comprara ao projetista americano em 1931.

Esta profissionalização do Exército Vermelho recebeu o selo da aprovação partidária em março de 1934, quando finalmente o princípio do controle duplo foi abolido, limitando-se a atuação do comissário aos conselhos de educação política. No ano seguinte, os títulos formais de postos militares (durante a revolução substituídos por eufemismos como “especialistas de comando”) foram reintroduzidos, incluindo a nova distinção de marechal, à qual os cinco mais importantes líderes soviéticos foram promovidos. Estes eram Tukhachevsky; Voroshilov, Comissário da Defesa, veterano agitador político, ex-membro do 1o Exército de Cavalaria Vermelho e associado íntimo de Stalin; Yegorov, Chefe do Estado-Maior e ex-membro do 1o Exército de Cavalaria; Budenny, ex-suboficial tzarista promovido a general de cavalaria (também ex-membro do 1o Exército de Cavalaria); Clucher, outro ex-sargento Tzarista, herói da guerra civil, ex-consultor militar de Chiang-Kai-shek e comandante do semi-autônomo exército da Sibéria.

A crescente profissionalização do exército se fez acompanhar de profundas modificações que o transformaram numa corporação totalmente ativa. Até então, a infantaria do Exército Vermelho pertencera na maioria às formações da Milícia de Cidadãos, sediadas numa área urbana e cujos soldados só esporadicamente treinavam. As alterações introduzidas previam também o serviço obrigatório do conscrito, realizado de uma só vez, nas unidades formadas para o serviço realmente ativo, ao mesmo tempo que Stalin decretava a liberação de verba destinada ao adestramento de grandes massas de cidadãos civis em pontaria, saltos de pára-quedas (não de aviões, mas de arneses especiais ligados a elevadas torres) e na defesa civil.

Coincidia o aumento do contingente permanente do Exército Vermelho com as idéias que Tukhachevsky e dos generais soviéticos de mentalidade idêntica. Mas seu efeito foi menos eficaz na prática do que na teoria, pois ele introduziu no exército muitos camponeses descontentes com a coletivização da agricultura, iniciada em 1931, que demonstraram empenho muito pequeno durante o treinamento militar. Alguns oficiais graduados ficaram tão alarmados com a transformação do exército, por causa do comportamento das unidades conscritas, que começaram a surgir pedidos de modificação no programa. Na Sibéria, o Marechal Blucher conseguiu obter concessões, não estendidas, porém, ao resto do país.

Aliás, como teria Stalin concordado com isso, quando apenas havia acabado de completar o expurgo do partido e na NKVD (a Polícia Secreta)? Embora estivesse firmemente controlados estes dois órgãos, havia um terceiro, de igual importância, com possibilidade de o derrubar, se seus líderes assim o desejassem, o exército. Voroshilov, que ocupara o posto de Comissário da Guerra desde 1925, parecia ser leal, mas também era, profissionalmente, o de menor influência dos cinco marechais, e provavelmente era quem tinha o menor apoio, correspondente à sua posição, do corpo regular de oficiais. O restante, e o grosso das fileiras superiores do Exército Vermelho, pessoalmente nada deviam a Stalin Já de haviam iniciado na carreira das armas antes que estes subissem ao poder e sua promoção dependera mais dos próprios esforços ou da estima dos colegas do que da intervenção do partido ou de favores do ditador. Agora que estava excitado pela atmosfera gerada pelo expurgo do partido, acreditando um pouco nos perigos que ele próprio inventara, ou talvez embriagado pelo prazer de derramar sangue, não surpreende que Stalin estivesse decidido a não parar até que todos os seus inimigos, reais, potenciais ou imaginários, tivessem recebido uma bala na nuca.

Também é possível que Stalin tivesse conseguido provas da existência de uma conspiração contra seu domínio pessoal, sendo quase certo que a Gestapo tenha apresentado um dossiê falso, sugerindo que Tukhachevsky estava trocando informações secretas com o Estado-Maior-Geral alemão. Esses boatos permanecem incomprovados. Não obstante, Tukhachevsky se havia comportado insensatamente durante o expurgo do partido, sobretudo no decorrer de uma viagem que fizera à França - um deleite sem paralelo para um oficial soviético - e, o que era mais agourento, também fora acusado por um réu, durante um dos falsos julgamentos partidários, de ter estado em contato com Trotsky, já exilado. Seja qual for a verdade disso, ou de quaisquer alegações feitas contra ele ou qualquer outro oficial, Tukhachevsky foi um dos primeiros a serem presos e mortos. Ele e mais sete generais foram julgados e fuzilados nos dias 11 e 12 de junho de 1937.

Este episódio, pequeno mas brutal, instituiu e caracterizou o holocausto que se seguiria. Por volta do outono de 1938, como resultado de execuções sumárias e de aparatosos julgamentos falsos, o Exército Vermelho perdera quase metade dos seus oficiais: três dos seus cinco marechais; 13 dos 15 comandantes do exército; 57 dos 85 comandantes de corpo; 110 dos 195 comandantes-de-divisão e 220 dos 406 comandantes-de-brigada. Nos escalões inferiores, calcula-se que os golpes foram ainda mais pesados, embora de coronel a capitão as penas fossem quase sempre de prisão. No Alto-Comando, porém, político e militar, a morte era sentença quase certa. Os Subcomissários da Defesa, em número de 11, foram fuzilados, bem como 75 dos 80 membros do Soviete Militar, criado em 1934; todos os Comandantes Militares de Distrito e a maioria dos seus Chefes de Administração Política (isto é, comissários graduados).

O método adotado por Stalin na condução do expurgo deixou em todos a impressão de enorme confusão. Se, por um lado, eliminou muitos ex-oficiais tzaristas e comandantes revolucionários com larga folha de serviço prestados à revolução vermelha, por outro lado conservou em seus postos famosos ex-oficiais do regime deposto. Shaposhnikov, que estudara na Imperial Escola do Estado-maior-Geral e perdera as graças de Stalin em 1937, em substituição a Yegorov, de origem camponesa, e conseguiu manter-se no cargo durante vários anos, só se demitindo em virtude de problemas de saúde. Também os comandantes militares não sofreram mais que os políticos, já que os comissários também foram executados em número talvez muito maior. Em tal conjuntura, o melhor modo de sobreviver parece que era a associação com os elementos do 1o Exército de Cavalaria da época da Guerra Civil, a força anticossaca que dera apoio político a Stalin e cujos métodos de operar restrições por parte de Tukhachevsky.

Foi este o 1o Exército de Cavalaria que, depois do expurgo, subiu ao poder, por intermédio de seus dirigentes: Budenny, Timoshenko, Kulik e Zhukov. Todos desfrutavam da proteção de Stalin. Se antes lhe deviam muito, agora lhe deviam tudo, inclusive a vida. É, porém, duvidoso que Stalin, em troca dessa simpatia, recebesse a proteção que esperava: em Timoshenko ele tinha um comandante capaz, se não inspirado; em Zhukov, um general talentoso mas muito moço, sem a vivência necessária ao pleno desenvolvimento do espírito; em Budenny, uma figura de soldado apenas decorativa, com idéias táticas muito superficiais e concepções estratégicas obsoleta e, em Kulik, um Chefe do Departamento de Material Bélico (sucessor de Tukhachevsky) muito confuso, que advogava a retirada de armas automáticas leves do exército (alegando que eram inadequadas para os soldados) e a suspensão da produção de canhões antitanques e antiaéreos. Ele também interpretara mal as provas recolhidas pelos observadores do Exército Vermelho durante a Guerra Civil Espanhola (na qual grande parte do equipamento russo fora experimentada) sobre o uso de blindados, decidindo, baseado nas suas conclusões, dissolver as grandes formações blindadas que Tukhachevsky estivera organizando, e redistribuindo os tanques em pequenas unidades, entre a infantaria. O efeito desses erros de cálculo e, de modo mais geral, das comoções que lhes tinham dado origem, só foram percebidos fora da Rússia em 1940, depois que Stalin insensatamente declarou guerra à Finlândia.

A origem da conseqüente derrota, altamente “embaraçosa”, foi o desejo de Stalin de assegurar a transferência ou o arrendamento de território finlandês adjacente aos acessos às suas bases navais no Báltico. A recusa da Finlândia em concedê-lo levou ao rompimento de relações diplomáticas e, a 30 de novembro de 1939, a um ataque total russo pelo Istmo da Carélia, o corredor terrestre que liga o sul da Finlândia à região de Leningrado. Embora desfechado com o apoio de considerável volume de tropa, ele foi repelido, assim como os ataques ao longo da fronteira terrestre russo-finlandesa, acima e abaixo do Círculo Ártico. Somente no começo de fevereiro de 1940, depois da concentração de reforços da ordem de quase um milhão de soldados, e de prolongado bombardeio das posições defendidas pelos finlandeses na “Linha Mannerheim”, é que o Exército Vermelho finalmente conseguiu penetrar, obrigando os finlandeses a pedir a paz um mês depois. Essa eventual recuperação do prestígio perdido deveu-se à liderança e à habilidade de comando de Timoshenko, muito superiores às do comandante original na frente finlandesa, o Marechal Voroshilov, que, daí por diante, retornou ao trabalho de natureza política, muito mais adequado ao seu temperamento.

O padrão e o resultado da guerra finlandesa, na qual, durante todo um inverno, uma nação de três milhões e meio de habitantes não só contivera, como também cercara o exército de uma nação de mais de cem milhões, ridicularizando seus líderes, pouco fizeram para realçar o prestígio militar soviético. Aliás, foi tão ardente o entusiasmo despertado no Ocidente pelo desafio finlandês aos russos, que a Grã-Bretanha e a França quase intervieram do lado da Finlândia. Tivessem esses países feito tal coisa, sem dúvida teriam lamentado o resultado final, mas o resultado imediato acentuaria a sensação de frustração dos russos.

Contudo, a prazo mais longo, as lições da campanha finlandesa, ainda que difíceis de engolir de uma vez só, mostraram-se de grande utilidade para os russos. Os observadores estrangeiros - Hitler principalmente - concluíram que, pelo desempenho medíocre dos russos, suas falhas - exatamente as mesmas apresentadas contra o exército alemão da Primeira Guerra Mundial, bem inferior ao da Segunda - eram irremediáveis e que, em qualquer campanha maior, os russos amargariam os mesmos reveses de Tannenberg e dos Lagos Masurianos, em 1914. Ineficiência, falta de previsão, confusão: estes eram os defeitos com os quais qualquer inimigo da Rússia poderia contar, segundo tudo levava a crer, com toda a segurança e que só eram redimidos pela bravura do soldado comum.

Contudo, a Rússia e seu exército não desperdiçaram a lição recebida na Finlândia, tanto que, assinado o armistício, muito esforço foi desenvolvido no sentido de repensar todo o plano militar. Outra campanha, a travada por Zhukov contra os japoneses intrusos na fronteira mongólica com a Sibéria, em maio de 1939, e que quase passou despercebida no Ocidente, oferecera provas muito diferentes do valor do Exército Vermelho. Timoshenko, que assumira o comando de fato em lugar de Voroshilov, providenciou para que aquilo que um pequeno destacamento do Exército Vermelho realizou num conflito localizado se tornasse o padrão dos operações do exército. A vitória de Zhukov implicava o uso de grande quantidade de blindados, indício de que Timoshenko havia feito reviver o corpo de blindados – formações de duas divisões de tanques e uma divisão motorizada – que Tukhachevsky organizara antes de sua queda. Sob a influência desses acontecimentos e do novo comando, duas coisas de grande significação militar aconteceram: autonomia para os comandantes das forças armadas na tomada de decisões em assunto de natureza militar e a colocação dos comissários, pela segunda vez, como consultores políticos, apenas. Ao mesmo tempo, muitos dos oficiais aprisionados ou banidos durante o grande expurgo militar foram reintegrados e se emitiram novos regulamentos de treinamento, baseados na experiência da Guerra da Finlândia e nos relatórios das operações alemãs na Polônia e na França.

Não seria possível consertar tudo no pouco tempo disponível, como ficaria provado. O expurgo desfechara um golpe quase mortal na autoconfiança  do corpo de oficiais, coletiva e individualmente, tornando improvável a oficialidade de categoria média ou abaixo da média – por definição, a maioria – arriscar uma linha de ação independente quando em contato com o inimigo (aliás, a obediência extremamente rígida às ordens era uma das principais deficiências russas). Por outro lado, a propaganda partidária, apesar das humilhações da Guerra Finlandesa, fez que se desenvolvesse no soldado russo a impressão sem dúvida falsa de que o Exército Vermelho era imbatível, e que merecia por parte de todos a mesma confiança que depositavam na infalibilidade do julgamento do Politburo. Não obstante, até o verão de 1941, muita coisa se fez para restaurar o equilíbrio do Exército Vermelho e, independente do quanto estivesse por ser feito, só o seu tamanho e o volume do seu equipamento bastavam para fazer com que qualquer atacante em potencial parasse para pensar.

À parte a Osoaviahlim e as reservas treinadas, estas últimas produto do sistema de conscrição universal instituído em meados da década de 1930, o Exército Vermelho na primavera de 1941 tinha, em sua ordem de batalha, entre 230 e 240 divisões, a maioria das quais com efetivos completos; além disso, umas 170 estavam dentro do alcance da fronteira ocidental. A maioria dessas era formada das chamadas Divisões de Fuzileiros (infantaria), de cerca de 14.000 homens, sem muitos transportes mesmo hipomóveis. Quanto às divisões de tanques, haveria pelo menos 22 e no máximo 60, cada qual formada de dois regimentos de tanques, um de infantaria transportada em caminhões e um regimento de artilharia. Havia pelo menos 13 divisões motorizadas, nas quais esta proporção entre tanques e infantaria era inversa. Estes dois tipos de divisão eram os equivalentes exatos das Divisões Panzer alemãs – e das que mais tarde seriam chamadas de divisões Panzergrenadier – embora os russos conseguissem manter os efetivos de tanques de seus regimentos blindados num nível muito superior ao dos alemães.

Contudo, grande parte, se não a maior, do poderio ofensivo e defensivo do Exército vermelho foi anulada pelo estranho plano de deslocamento que Stalin impusera às formações de campanha no começo do verão de 1941. Naturalmente, as fronteiras da Rússia  naquele ano, e naquela estação, eram diferentes das que teria tido de defender dois anos antes, pois, em quase toda parte, elas estavam bem mais para oeste do que a linha de 1939. A anexação dos estados Bálticos – Lituânia, Letônia e Estônia – tinha trazido a fronteira russa até a fronteira norte da Prússia Oriental; a divisão da Polônia com a Alemanha avançara o setor central da fronteira quase até Varsóvia e no sul, a anexação da Bessarábia arrancada à Romênia em 1940, havia levado as tropas russas para a outra margem do Dniester até o Pruth. Por mais que a aquisição de todo esse território pudesse agradar a Stalin, não facilitava em nada as tarefas estratégicas dos seus generais, pois as novas fronteiras significavam que as antigas defesas de fronteiras haviam perdido qualquer sentido e passaram a situar-se, em certos lugares, a centena de quilômetros atrás da futura zona militar de operações.

Uma fronteira aberta, sem poderosas defesas e sem obstáculos naturais – rios largos, grandes lagos ou altas montanhas – exigem defesa em profundidade por forças equipadas e treinadas para travar guerra móvel. Grandes reservas, localizadas em pontos-chaves na rede de batalha, são um requisito para qualquer defesa bem sucedida; sem tais forças ao seu alcance, o comandante de fronteira aberta não se livra do pesadelo de uma penetração irresistível.

E Stalin condenou seus comandantes a viver debaixo desse pesadelo durante toda a primeira metade de 1941, pois, em lugar de destinar parte de suas forças para formar uma reserva estratégica, ele insistiu para que fossem todas deslocadas para postos avançados; não lhe sendo possível reconhecer que a conformação da fronteira russa, com suas muitas saliências e reentrâncias, tornava antieconômica a defesa de cada quilômetro, ele insistiu na guarnição de toda a sua extensão; e em lugar de reconhecer que certos trechos da fronteira necessitavam de menos defesa do que outros, como, por exemplo, a parte imediatamente a oeste dos impenetráveis pântanos do Pripet, ele espalhou suas divisões por pontos quase que eqüidistantes entre si de norte a sul, entre o Báltico e o Mar Negro.

Resta apenas indagar dos motivos que levaram Stalin a expor seu exército a perigo tão óbvio. Tem-se dito que seus motivos eram “formados de complacência, confiança e de uma espécie de nervosa precaução”: complacência alimentada pela propaganda por ele mesmo estimulada sobre a invencibilidade do Exército Vermelho; confiança de que a guerra poderia ser evitada, e nervosa precaução, denunciada no poderoso anteparo de soldados que fez colocar bem à frente, para que a reunião de tropas das Rússias central e oriental, atrás desse anteparo, pudesse ser feita despercebidamente. A esta lista de motivos poderíamos acrescentar a “realização de desejo”. Stalin não queria a guerra; fez ouvidos moucos às advertências sobre os perigos da guerra feitas pelos seus amigos e prováveis amigos (Churchill entre eles); Stalin cumpriu à risca os acordos de remessa de alimentos e matérias-primas devidos à Alemanha e proibiu seus comandantes de realizarem qualquer tipo de preparativo militar, por vital que fosse à segurança do seu próprio setor da frente, desde que os alemães pudessem interpretar como ato de provocação ou agressão.

França 1940

A vitória mais fácil da História


A França caiu em pouco menos de seis semanas de iniciada a ofensiva alemã no Ocidente, a 10 de maio de 1940. Mas a questão já estava resolvida nos seis primeiros dias, e resultou numa guerra que durou seis anos, espalhou-se pelo mundo inteiro e teve efeitos importantes sobre incontável número de pessoas e conseqüências espantosas para muitos milhões.

Mas o sucesso inicial da Alemanha estava longe de ser inevitável, embora pudesse parecer assim depois dos acontecimentos. Na verdade, teria sido muito fácil impedi-lo.

A ninguém é lícito atribuir a vitória germânica a uma superioridade avassaladora de suas forças. A Alemanha não mobilizou tantos homens quanto seus adversários - à custa da produção de armas desses últimos. É verdade que os alemães conseguiram formar e equipar maior número de divisões que os franceses, mas, em relação a seus adversários todos, no Ocidente, não levava qualquer vantagem, numericamente falando. O que, afinal, não tinha grande importância, pois a questão na realidade foi decidida pela performance de uma elite de 8% do seu exército - as dez divisões blindadas - as Panzerdivisionen - antes que o grosso de suas forças armadas tivesse entrado em ação.

Superestimou-se muito o volume de blindados alemães, na época. Embora os franceses calculassem um total de 7 a 8 mil tanques, sabe-se que o Exército alemão tinha menos da metade desse número - menos de 2.600 foram usados na primeira fase, a decisiva da invasão. Os franceses tinham muito mais tanques, mas não eram tão móveis e a maior parte deles espalhava-se em pequenos grupos, e não se concentrava para um ataque poderoso. Os generais franceses ainda se apegavam à idéia corrente em 1918, de que os tanques eram auxiliares da infantaria. Hitler, ao contrário, dava ouvidos a Guderian, o líder da nova escola, para quem a divisão blindada devia ser a ponta de lança do exército.

Hitler também dava grande importância ao poderio aéreo, e sua superioridade em números era enorme - quase 3 para 1. Treinando os seus muitos bombardeiros de mergulho - Stukas - para o apoio ao trabalho dos tanques, colherem os germânicos excelentes resultados. Os chefes militares franceses negligenciaram o poderio aéreo, e só tarde demais tentaram remediar o mal.

Depois de terem cruzado o Mosa, os tanques avançaram pelas estradas que conduziam ao oeste, sem encontrar quase nenhuma oposição. Numa semana haviam atingido a costa do Canal da Mancha, a 250 km de distância, e isolado os exércitos aliados, na Bélgica. Os resultados foram a retirada de Dunquerque e a queda da França, a vitória mais fácil da História.

O ritmo verdadeiramente infernal da guerra - ritmo imposto pelos Panzer - como que paralisou o Estado-Maior francês, entregue ainda ao compasso de 1918. As ordens por ele emitidas poderiam terem sido eficazes, se não fossem sempre dadas 24 horas depois de terminada a situação que pretendiam enfrentar.

Outra razão para o desastre da França: a preocupação do Estado-Maior em montar contra-ataques maciços, em lugar de procurar rapidamente guarnecer as linhas de resistência. Vezes sem conta os alemães cruzavam essas linhas enquanto as reservas francesas se agrupavam gradativamente nos flancos. O Estado-Maior francês se contentava em obedecer a uma velha teoria ofensiva, independente do que estivesse ocorrendo na prática.

Os estadistas da França e Inglaterra haviam facilitado o caminho de Hitler, por não lograrem ver qual seria o resultado da sua política. Também os militares foram imprevidentes. O colapso de 1940 foi basicamente o resultado da maneira como a ortodoxia militar prevaleceu sobre as idéias modernas, não só naquele momento, como também nos 20 anos anteriores. Franceses e britânicos - excetuando-se pequeno grupo de estrategistas modernos, que pregavam a idéia da guerra mecanizada e altamente móvel - permaneceram muito conservadores, desde a vitória de 1918. Quanto aos alemães, desprezados pela derrota, revelaram-se progressistas. Esta é a chave do que aconteceu nos campos de batalha de 1940.

Neste livro, John Williams destroi muitos mitos. Ao mesmo tempo em que, com uma narrativa inteligente e esclarecedora, aprofunda um estudo dos dramáticos acontecimentos de 1940.



Os planos rivais


Na manhã tranqüila e clara de sexta-feira, 10 de maio de 1940, forças maciças da Alemanha de Hitler irromperam pelas fronteiras da Holanda, Bélgica e Luxemburgo para pôr fim à longa inércia da “guerra falsa” que, à parte a invasão da Noruega e Dinamarca, no mês anterior, vinha persistindo desde o começo da Segunda Guerra Mundial, em setembro de 1939. Iniciava ali a grande Batalha do Ocidente.

Na França ainda não houvera invasão: os ataques limitavam-se a incursões de bombardeio que penetravam profundamente o território francês. No QG Supremo em Vincennes, a oeste de Paris, relatórios sobre as atividades inimigas estavam chegando desde a 1 hora da manhã. Cinco horas depois, dissipada qualquer possibilidade de ter havido alarme falso, o General Gamelin, Comandante-Chefe aliado, mandou dos seus escritórios, nas sombrias casamatas de Vincennes, a ordem histórica: “Holanda-Bélgica, manobra Dyle”, que poria em movimento a grande maquinaria avançada dos exércitos anglo-franceses para suas posições de batalha, previamente designadas, na Holanda e na Bélgica.

Chegado o momento, o General Maurice Gamelin, de 67 anos de idade e conhecido pela sua serenidade, parecia muito confiante. Um oficial do estado-maior que chegara a Vincennes nunca o vira tão alegre. De estatura baixa e atarracada, o general percorria o corredor do QG, “trauteando calmamente uma melodia marcial”. Mal saíra o sol naquela manhã, já ele expressava seu otimismo às tropas em sua primeira “Ordem do Dia”: “O ataque que prevíramos desde outubro foi desfechado esta manhã. A Alemanha inicia contra nós uma luta de vida ou morte. A senha para a França e seu aliados é: Coragem, energia e confiança. Como o Marechal Pétain disse, há 24 anos: nós os pegaremos”.

Não há dúvidas de que “coragem, energia e confiança” era excelente brado de guerra e que as perspetivas de ação, depois de meses de tédio e espera, eram um tônico para o moral dos franceses e britânicos ao se prepararem para sua movimentação rumo ao norte, onde enfrentariam o inimigo. Mas, enquanto a formidável máquina bélica alemã se avolumava nas fronteiras holandesa, belga e luxemburguesa, nas primeiras horas de 10 de maio, qual era exatamente o plano estratégico dos exércitos aliados?

Em setembro de 1939, os Estados-Maiores-Gerais aliados (anglo-franceses) haviam aperfeiçoado um plano conhecido como “Plano D” ou “Plano Dyle” (nome de um rio belga). Estruturado na suposição de que, como acontecera em 1914, os alemães avançariam pela Bélgica, quando atacassem no Ocidente, o plano especificava, como contra-ataque, um avanço anglo-francês que, partindo da fronteira francesa, penetraria na Bélgica para ocupar uma linha baseada no rio Dyle. Os planejadores estavam prejudicados pela atitude estritamente neutra dos belgas (e holandeses), que impediam a entrada de tropas aliadas em seus territórios antes de um ataque alemão. Contudo, o “Plano D” levava em conta a penetração de ambos os territórios.

Haveria cinco exércitos envolvidos no plano, do sul para o norte - o 9° exército francês, o 1° exército francês, a Força Expedicionária Britânica (FEB), o próprio exército belga e o 7° exército francês (que ocuparia a linha Breda-St Leonard, do outro lado da fronteira holandesa). Depois do ataque alemão inicial, essas tropas ocupariam as seguintes posições (com os belgas já no local) do sul para o norte: o 9° exército francês, Namur-Wavre; a FEB, Wavre-Louvain; o exército belga, Louvain-Antuérpia; o 7° exército francês, Turnhout-Breda (Ao norte do 7° exército, a Holanda seria protegida pelo exército holandês). Assim, juntamente com o exército belga, um exército britânico e três franceses confrontariam os alemães numa linha de 160 km, baseada em barreiras fluviais e enrijecida por fortificações que atravessavam toda a Bélgica, no sentido da largura, e penetravam na Holanda.

Ao preparar o “Plano D”, os encarregados de sua elaboração haviam admitido que o principal assalto alemão se daria nas planícies belgas ao norte de Namur, ignorando região ao sul de Namur - o terreno acidentado e boscoso das Ardenas e o rio Mosa com suas margens alcantiladas - por julgarem que ele não oferecia nenhuma ameaça séria. “Esse setor não é perigoso”, dissera o Marechal Pétain a uma Comissão do Exército, em 1934. Como resultado lógico desse raciocínio, a decisão do “Plano D” - tão fatídico para os aliados - foi colocar os dois mais poderosos exércitos franceses, os 7° e o 1°, ao norte de Namur, e o mais fraco ao sul.

Mas, durante os meses de trégua intranqüila no Ocidente, Hitler estivera fazendo seus planos. Na verdade, o plano original da invasão alemã previa um movimento desbordante pela Bélgica Central (seguindo as diretrizes do “Plano Schlieffen” de 1914), conforme estipulado na primeira versão do “Plano Amarelo” alemão, preparado em meados de outubro de 1939. Este plano especificava uma operação subsidiária pelas Ardenas. Mas um general alemão, Erich von Manstein - Chefe do Estado-Maior do General von Rundstedt, comandante do Grupo de Exércitos “A”, que fora destacado para a ação nas Ardenas - não aprovava esse plano. Prevendo que a Bélgica Central seria intensamente defendida, ele queria que o Grupo de Exércitos “A” desfechasse o ataque principal no setor menos protegido das Ardenas-Mosa. Mas, não seria para os tanques um obstáculo grave o terreno notoriamente difícil daquela região? Quanto a esse problema, Manstein consultou o perito em blindados, General Heinz Guderian, que, depois de cuidadoso estudo, considerou a operação viável.

O próprio Rundstedt já agora aceitava a proposição e, juntamente com Manstein, recomendaram-na ao OKH (o Alto-Comando do Exército alemão), mas sem êxito. A idéia teria sido totalmente abandonada, mas Manstein - transferido para outro lugar por ser incômodo ao OKH - por acaso jantou com Hitler em fevereiro, e na oportunidade explicou-lhe seu plano. O Fuhrer, que tinha dúvidas quanto ao esquema original, em parte porque fora revelado aos aliados, através de planos alemães capturados na Bélgica no mês anterior, (Em janeiro de 1940, dois oficiais alemães, portadores dos planos completos da invasão se perderam, com seu avião, na bruma, fazendo pouso forçado. Ao verificarem que se encontravam na Holanda, tentaram atear fogo aos planos, mas foram violentamente obstados por policiais que haviam  acorrido numa viatura. Os planos foram revelados pelo governo holandês aos belgas, franceses e ingleses, mas, como sempre sucede, foram considerados um despistamento. Aos poucos a espionagem alemã foi verificando que as potências ameaçadas não tinham dado crédito à sua boa sorte, e Hitler decidiu manter os planos) ficou muito impressionado e adotou imediatamente o plano das Ardenas de Manstein, incorporando-o em sua Diretiva de Guerra n° 10, de 18 de fevereiro de 1940. Uma semana depois, promulgou-se o “Plano Amarelo”, em sua quinta e última forma, que dava ao Grupo de Exércitos “A” de Rundstedt o papel principal na próxima ofensiva. Aumentado para 44 divisões, 7 das quais blindadas, o grupo devia atravessar as Ardenas, cruzar o Mosa, entre Sedan (na França) e Dinant (na Bélgica), e estabelecer cabeças-de-ponte destinadas a avançar para o Canal da Mancha. Como já observamos, o mais fraco dos exércitos franceses é que se poria a essa força maciça. Assim - golpe fatídico do destino ou raciocínio brilhante de Manstein? - os planejadores franceses foram superados, assegurando-se virtualmente o envolvimento, na Bélgica, de grande parte dos exércitos aliados antes de iniciada a ofensiva.

Outros fatores, porém, pesavam contra a França, nesse crítico 10 de maio. Embora fisicamente mobilizado para a guerra, o país ressentia-se da falta da unidade e da determinação necessária para o duelo terrível. Além disso, a longa trégua da “guerra falsa” servira para eliminar o senso de urgência que a dominara em setembro de 1939 - e talvez tivesse criado um estado de falso otimismo e de confiança excessiva. Mas, por trás de tudo, inibindo esforços necessaríssimos na emergência, havia profunda aversão à guerra, criada pelos seus antigos conflitos com seu velho inimigo e vizinho mais poderoso, a Alemanha.

Derrotada na Guerra Franco-Prussiana de 1870 e sofrendo danos imensos nas mãos da Alemanha, na Primeira Guerra, a França desde então se preocupava com a segurança - que se expressava militarmente numa estratégia defensiva na construção da grande “Linha Maginot”- a barreira mágica que deteria o agressor alemão para sempre.

O raciocínio em que se basearam os idealizadores da “Linha Maginot” era lógico. No final da Primeira Guerra decidida a nunca mais sofrer invasão alemã, a França viu-se diante de um problema extra de defesa, a proteção das recém-recuperadas províncias da Alsácia-Lorena, que ela perdera como resultado da guerra de 1870. A região era vital para a França, por produzir carvão e potassa. Para evitar sua destruição, no caso de qualquer ataque da Alemanha, elas teriam de ser defendidas na fronteira. Até a chegada de tropas pela retaguarda, afirmava-se que o melhor meio de fazer uma defesa imediata era um sistema fortificado permanente. Do nome de um veterano de guerra, ferido no primeiro conflito mundial, natural da Lorena, André Maginot, saiu a sua denominação. Como Ministro da Guerra em 1922 convencido de que uma Alemanha pacífica e amistosa seria uma irrealidade, iniciou André Maginot campanha para que se providenciassem as defesas da Alsácia-Lorena. Durante toda a década de 1920, ele e seu sucessor, Paul Painlevé, trabalharam energicamente para que seu plano fosse posto em prática, enquanto que os mestres do Estado-Maior Geral ponderavam indecisamente sobre o tipo de defesa que se deveria construir, e sua extensão.

Dois grandes líderes franceses da Primeira Guerra contribuíram  para a tomada da decisão: os Marechais Joffre e Pétain, cujas opiniões sobre a questão eram antagônicas. Joffre (Presidente da Comissão para Áreas Fortificadas no pós-guerra), propunha um série de fortificações separadas, desde o mar do Norte até a fronteira suíça, entre as quais se poderiam desfechar ataques em grande escala. Por outro lado, Pétain (Vice-Presidente do Conselho do Exército e Inspetor-Geral do Exército) optava por um sistema defensivo ininterrupto, para proteger somente a fronteira nordeste. O plano adotado em 1928, depois de muita discussão, foi um meio-termo. As regiões fortificadas sugeridas por Joffre seriam ligadas às defesas contínuas propostas por Pétain, num sistema que cobriria o Reno e a região nordeste. Assim, eliminado o conceito da “ofensiva” e aceito o sistema de defesas ininterruptas, predominavam as idéias de Pétain, que punha a defesa acima de todas as outras considerações (Henri Philippe Pétain - 1856-1951 - fora chamado ao comando do setor de Verdun em 1916, quando esta frente se rompeu catastroficamente pelo grande assalto de Falkenhayn, em fevereiro. A monstruosa hecatombe que se seguiu até outubro traumatizou o excelente homem e general, um dos poucos naquela guerra que não considerava seus soldados como simples estatísticas. E estes o sentiam: sabiam que o já velho Pétain procuraria sempre poupar suas vidas. Sua magnífica ação no domínio dos grandes motins do Exército francês, em 1917, com firmeza temperada com brandura, também não fora esquecida. O papel de Pétain à testa do governo francês de Vichy deve ser visto sob uma dupla luz: seu horror as mortíferas ofensivas, que o tornaram um conciliado e pacifista a todo o preço, e a confiança que inspirava à geração dos veteranos, transmitida também, por estes, às novas gerações. Tratava-se, porém, de um pobre velho já despido de resolução e raciocínio criativo).

A construção da “Linha Maginot” só terminou em 1938, devido a questões financeiras e outras dificuldades que atrasaram os trabalhos. A França tinha agora um grande bastião fortificado, de concreto e aço, a proteger (em diferentes profundidades e poderio) suas fronteiras norte e nordeste, da Basiléia a Montmédy. Não se planejou estender a linha para além de Montmédy porque, como se afirmava, a fronteira franco-belga estava muito próxima de centros vitais, como Lille, e porque o subsolo parecia inadequado para estrutura de concreto maciças. Além disso, as autoridades francesas receavam que o prolongamento da fortificação pudesse dar aos belgas a impressão de que a França seria indiferente a qualquer ataque desferido contra seu país.

Por mais valioso que fossem esses fatores, a fraqueza básica da “Linha Maginot” tornava-se patente agora. Por terminar em Montmédy, era uma linha da qual se poderia desviar, “perigoso compromisso, com uma ponta apoiada no vácuo”. Além disso, a estratégia defensiva de Pétain agora parecia ser fundamentalmente incoerente, porque criara uma linha híbrida de defesa, desde o Canal da Mancha até a Basiléia, dependendo de fortificações estáticas num trecho da sua extensão e, no outro, de mobilidade de tropas que só seria eficaz se tivesse a ponta-de-lança de uma arma específica. A formação desta arma, a  força blindada, vinha sendo sistematicamente rejeitada pelo Parlamento e pelo Estado-Maior-Geral desde que fora sugerida, em 1934, por um militar de excelente formação profissional, o Tenente-Coronel Charles de Gaulle. Em lugar desta arma essencial para o tipo de guerra em que a França provavelmente seria envolvida por uma Alemanha agressiva, o exército francês admitia o emprego da mesma infantaria, dos mesmos processos vigentes na Primeira Guerra. Em outras palavras, quer os franceses planejassem ou não cruzar a fronteira e penetrar na Bélgica para contra-atacar um assalto alemão, eles estavam - do Canal da Mancha a Montmédy - comprometidos com uma guerra moderna de movimento, para a qual estavam totalmente despreparados.

Eram estas as deficiências provocadas pela dedicação da França à defesa passiva, e pela sua recusa em adotar técnicas ofensivas modernas.  Ao mesmo tempo, ela era atribulada por problemas políticos, e carente de uma liderança vigorosa, cada vez mais sucumbia ao pacifismo e ao derrotismo. Tudo isso era mau presságio para sua capacidade bélica ao se confrontar novamente com a Alemanha em setembro de 1939.

Mas seus soldados haviam respondido à convocação com um senso sombrio de propósito: “Temos de acabar com isso”, era o brado. Os homens estavam “prontos para o heroísmo”, escreveu um correspondente, “mas não para fanfarronadas”. Mas, infelizmente para o exército francês, em vez de lutar, foi condenado a ficar na ociosidade, e numa rotina de tempo de paz, durante quase 8 meses de guerra. Seu espírito de luta foi gradativamente solapado pela ausência de ação, por falsas esperanças de que Hitler talvez não atacasse, pela propaganda que os alemães faziam, com panfletos e alto-falantes, das suas linhas e mesmo por palavras derrotistas na própria retaguarda francesa (Com a assinatura do acordo entre Hitler e Stalin, em 23 de agosto, 7 dias antes de iniciar a guerra com a invasão da Polônia, o Partido Comunista francês, como o dos outros países, cindiu-se. Mas aos poucos a “disciplina monolítica” de Moscou reafirmou-se. Era grande a influência comunista na França, recém-saída dos governos da Frente Popular. A “Linha do Partido” era o apoio à Alemanha e à propaganda pacifista. Em virtude do pacto que colocava os comunistas como aliados dos nazistas, o governo francês suspendeu os jornais comunistas desde 26 de agosto. No inicio, Moscou deixou os comunistas à vontade para agir, e os parlamentares comunistas aprovaram as medidas de guerra; o secretário-geral Thorez declarou: “O essencial é que a guerra se desfeche, sem tocar à Rússia”, frase reveladora. Quando, 20 dias depois, a Rússia invadiu e partilhou a Polônia com a Alemanha, os chefes comunistas não mais puderam abstrair a associação da sua “pátria socialista” com a Alemanha nazista, e isto coincidiu com as instruções recebidas de Moscou para desfechar grande campanha mundial pela paz. Com isto, a indignação e as rupturas foram profundas, inclusive da poderosa Confederação Geral do Trabalho - ate; então dominada pelos comunistas - que com muitos outros preferiu continuar a luta contra o nazismo a ter que seguir a trela de Moscou. Em 27 de setembro foi dissolvido na França o Partido Comunista e proibidas todas as suas atividades paralelas, com o afastamento de altos funcionários e parlamentares. A atitude geral dos comunistas franceses foi a da colaboração com os alemães, até o momento em que estes invadiram a “pátria do socialismo”, em junho de 1941. Mas a atuação comunista na França, desastrosa, por se considerarem aliados de Hitler, somou-se à atuação de grande número de partidos e grupos de pressão de direita, dos mais variados matizes).

Quando da mobilização, o exército de campanha francês tinha 2.776.000 homens e seu Exército do Interior 2.224.000 homens. O problema do Alto-Comando francês era como empregar essas forças imensas. As únicas possibilidades eram o treinamento e o trabalho de defesa: mas essas atividades foram seriamente prejudicadas pelo frio intenso do inverno 1939/40. Outra desvantagem era o moral e da disciplina ruins de muitas das tropas mais velhas de reservistas (que formavam quatro quintos do exército francês). Além disso, os oficiais de tropa e os graduados muitas vezes careciam de autoridade ou tinham pouca experiência. também as altas patentes careciam de vigor e élan, e esses defeitos atingiam até o QG Supremo onde o próprio General Gamelin não estava ciente de qualquer fraqueza no exército, conforme confessou.

Igualmente sério, durante os meses da “guerra falsa”, foi o fato de os franceses ignorarem as lições da recente campanha polonesa, na qual a Alemanha derrotou a Polônia em pouco menos de um mês. Embora fosse evidente, pelo exemplo dado pela Polônia, que os tanques dominavam o campo de batalha, o Alto-Comando francês ainda lhe conferia o papel de coadjuvante da infantaria na execução do “Plano D”. Embora a produção de tanques atingisse os 3.000 em maio de 1940 - mais ou menos igual à alemã - os tanques franceses eram mal adaptados para a moderna guerra móvel, pois eram lentos, pesados e desajeitados, em comparação com os tanques alemães, cuja blindagem e poder de fogo eram leves, e eram construídos apenas para obter velocidade e alcance. (Segundo o historiador militar Adolphe Goutard, em seu livro La Bataille de France, 1940, os tipos principais de tanques franceses eram os médio-leves R35 e H35, o médio-leve Somua 36 e os pesados B1 e B2, além dos H39 e R40. Os principais tipos alemães eram os PzKpfw I, II, III e IV).

Os franceses também não perceberam o importante papel ofensivo do avião, que a campanha da Polônia demonstrou. Enquanto os alemães tinham mais de 3.000 aviões em maio de 1940, incluindo 400 bombardeiros de mergulho Stuka, a França dispunha de uns 1.200 e não tinham nenhum outro bombardeiro de mergulho. Isto representava uma superioridade alemã de 3 para 1, embora o poderio de combate fosse mais ou menos igual, se os 130 caças britânicos que estariam nas bases da França em maio de 1940 fossem incluídos - um total de 800 aparelhos aliados, mais ou menos, em comparação com os 1.000 alemães. Mas, em velocidade, os alemães ficaram com a vantagem de seus Messerschmitts (Me 109 e Me 110) capazes de atingir 580 km/hora, em comparação com os 490 km/hora do Curtiss francês , os 480 km/hora do Potez e Morane e 573 km/hora dos Hurricanes que estavam em bases francesas. Em maio de1940, a França estaria muito inferiorizada em bombardeiros médios: apenas 150 contra os 1.470 da Alemanha.

Sua posição na artilharia não seria melhor - menos de 3.000 canhões antiaéreos, em comparação com os 9.300 da Alemanha; e a produção francesa de canhões antitanques, não mais de 8.000, estaria muito abaixo das necessidades. Só na artilharia de campanha - a arma de que se orgulhava - a França superaria a Alemanha; em maio ela disporia de mais de 11.000 canhões de todos os calibres, de 75mm a 280mm, em comparação com os 7.700 da Alemanha. Mas mesmo isto não era uma vantagem real, pois a maior parte da artilharia francesa era puxada a cavalos; portanto, inadequada para operações de alta mobilidade.

Era diante de todas essas fraquezas e deficiências que o General Gamelin trauteava satisfeito sua melodia marcial, nas casamatas de Vincennes, a 10 de maio. Mas se ele estava confiante na prontidão militar da França, seu governo tinha muito menos confiança nele. Paul Reynaud, que sucedera a Edouard Daladier como primeiro-ministro, em março de 1940, estava muito insatisfeito com a maneira como Gamelin cuidara da parte francesa na recente expedição aliada na Noruega, e resolvera destituí-lo do comando. Reynaud apresentou a questão ao Gabinete a 9 de maio - menos de 24 horas antes do ataque alemão. A maioria o apoiava, mas Daladier, o Ministro da Defesa Nacional e da Guerra, e o amigo mais firme de Gamelin, foi contrário. Numa atmosfera de crise, Reynaud decidiu renunciar, mas as notícias da ofensiva alemã fizeram-no mudar de idéia e reconsiderar sua atitude com relação a Gamelin. Enviou então, uma carta ao general em que frisava: “... apenas uma coisa é importante - a vitória”. Gamelin respondeu: “... só a França é importante”.

a invasao da Holanda

Cidade destruída


A Holanda viveu por detrás de uma cortina de neutralidade durante mais de um século. Nascida no período da Guerra dos Oitenta Anos, suportou impavidamente o conflito com uma série de inimigos durante a maior parte de sua história inicial. Foi bem sucedida em relação à Espanha Imperial, apesar das imensas adversidades, e acabou por conquistar a independência. Esta e mais as riquezas de novo império colonial que lhe vieram após, tiveram de ser valentemente defendidas em várias ocasiões contra muitos inimigos, às vezes novamente a Espanha, que se ligava a outros, depois a Inglaterra e, em seguida, a França. Os holandeses sempre resistiram, embora nem sempre fossem bem sucedidos, mas pelo menos conseguiram manter sua independência e o acesso ao mundo exterior, através do poderio marítimo. No entanto, mais de dois séculos de guerra tiveram como conseqüência a conquista da Holanda durante a Revolução Francesa, dando-se então a destruição do mito de que aquele país era indestrutível. A princípio estabeleceu-se uma independência fictícia como títere da França, para começar, como uma república - mais tarde monarquia regida pelo irmão de Napoleão - mas por fim esclareceu-se a verdadeira situação: em 1811 a Holanda foi integrada definitivamente ao Império Napoleônico. Quando este soçobrou e a Holanda foi libertada, os Países Baixos, ora ampliados com a adição da Bélgica e do Luxemburgo, abandonaram todas as aspirações de virem a ser grande potência e satisfizeram-se se portar como estado-tampão próspero entre uma Prússia que ressurgia e a França.

Como a própria Bélgica, cuja secessão da União em 1830 não foi de todo benéfica, o pequenino estado holandês esperava consolidar sua posição internacional optando pela neutralidade. Enquanto as guerras de unificação alemã e italianas transtornavam o equilíbrio europeu pelo poder no século XIX, os países Baixos mantiveram-se alheios, burgueses, conservadores e, sobretudo, a salvo de intervenção estrangeira. Embora a Primeira Guerra Mundial mostrasse abertamente aos belgas que a neutralidade não era garantia alguma contra um invasor implacável, os holandeses tiveram a sorte de se livrar do conflito, sofrendo apenas certas privações quando o bloqueio britânico do continente tornou-se mais eficaz nos últimos 18 meses do conflito. Pouco se fez no tocante à defesa; tendo-se argumentado que ela era dispendiosa demais, e desnecessária. Pois a guerra não fora evitada sem custosas despesas? O destino da Bélgica, ocupada e arrasada durante quatro anos, não causou grande impacto sobre as atitudes dos holandeses, muito embora ele soubessem ver e ouvir a guerra, da segurança dos seus lares, se viviam nas proximidades da fronteira daquele país.

No decorrer dos anos 20 a Alemanha foi dócil, militarmente fraca e destroçada pelo desemprego e pela inflação, e a Holanda, apenas pequenina parte do orçamento foi gasta com sua defesa. Quando Hitler subiu ao poder, embora o perigo para a segurança holandesa fosse evidente, não se gastou na defesa muito mais do que nos anos 20. Havia uma suposição não-escrita, quase não-falada, de que sobrevindo nova guerra, na Europa, a Holanda, de algum modo, ficaria alheia, protegida em sua neutralidade, como o fizera antes. Esta ilusão foi destruída a 10 de maio de 1940, quando levas de aviões despejaram bombas e pára-quedistas saltaram num estado de todo despreparado para a guerra, não só militar como também psicologicamente. Como aconteceu em outras democracias ocidentais, as vozes da razão que haviam pedido repetidamente rearmamento e aliança com seus aliados naturais, Inglaterra e França, foram ignoradas. A destruição de uma das suas maiores cidades, Roterdã, foi um choque ainda maior que a própria invasão. Em cinco dias, a Holanda perdeu sua independência. Roterdã, que os alemães bombardearam por engano, jazia em ruínas, juntamente com a política de neutralidade da Holanda.

Guilhermina Steenbeek, que passou por esse holocausto da guerra e da ocupação, descreve como se deu a invasão da sua pátria despreparada e os horrores provocados pelo bombardeio da sua cidade natal. Nenhum holandês que passou pela Segunda Guerra poderá jamais esquecer a repentina violência da Blitzkrieg ou a destruição brutal e desnecessária de que foi vítima uma das suas maiores cidades. Das cinzas da guerra surgiram uma nova Roterdã e uma nova Holanda, mas as lições da guerra foram aprendidas por preço muito alto. É pouco provável que o povo holandês retorne a uma neutralidade de avestruz, que não oferece como ficou provado defesa alguma contra um agressor predatório.

As bombas alemães destruíram uma grande cidade, mas nada pôde destruir o coração de seu povo. Roterdã Redux continua viva. Seu grande coração espiritual reconstruiu Roterdã dos escombros da guerra, um símbolo da Holanda e de uma Europa renascentes.

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